12.12.17

Mário Quintana: "Aula inaugural"



Aula inaugural

É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como na guerra
                                                                             [do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia, não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança;
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante da tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta.
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…



QUINTANA, Mário. "Aula inaugural". In:_____. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

11.12.17

Anônimo: "Traum" / "Sonho mau": trad. Geir Campos



Sonho mau

Esta noite sonhei
Um pesadelo assim:
– Em me jardim crescia
Um pé de alecrim;

Cemitério, o jardim;
A cova era um canteiro;
Flores, botões caíam
Do verde alecrineiro;

As flores coloquei
Juntas num jarro de ouro
Que me caiu dasmãos
E em cacos se quebrou;

Vi então correrem pérolas
E aljôfar cor-de-rosa...
Que quer dizer atl sonho?
Ah, Amada, estarás morta?




Traum

Ich hab die Nacht geträumet
Wohl einen schweren Traum,
Es wuchs in meinem Garten
Ein Rosmarienbaum.

Ein Kirchhof war der Garten
Ein Blumenbeet das Grab,
Und von dem grünen Baume
Fiel Kron und Blüte ab.

Die Blüten tät ich sammeln
In einen goldnen Krug,
Der fiel mir aus den Händen,
Daß er in Stücken schlug.

Draus sah ich Perlen rinnen
Und Tröpflein rosenrot:
Was mag der Traum bedeuten?
Ach Liebster, bist Du tot?




Anônimo. "Traum". In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português). Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

9.12.17

Torquato Neto e Jards Macalé: "Let's play that"




Let’s play that

Quando eu nasci
Um anjo louco muito louco
Veio ler a minha mão
Não era um anjo barroco
Era um anjo muito louco, torto
Com asas de avião
Eis que esse anjo me disse
Apertando minha mão
Com um sorriso entre dentes
Vai bicho desafinar
O coro dos contentes
Vai bicho desafinar
O coro dos contentes
Let's play that




NETO, Torquato. "Let's play that". In: MORICONI, Ítalo (org.). Torquato Neto essencial. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.


Canção: Jards Macalé canta a canção "Let's play that", parceria dele (música) com Torquato Neto (letra):


7.12.17

Sylvia Beirute sobre a poesia de Antonio Cicero



Fiquei feliz com a análise crítica que a poeta portuguesa Sylvia Beirute fez da poesia que escrevo. Fica aqui: http://sylviabeirute.blogspot.com.br/2010/11/antonio-cicero-poemas-poesia-analise.html.

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Fernando Pessoa: "Nesta vida, em que sou meu sono"



Nesta vida, em que sou meu sono

Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono.
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.

Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhou,
A Presença Real sob o disfarce
Da minha alma presente sem intento.



PESSOA, Fernando. "Nesta vida em que sou meu sono". In:_____. Poesias inéditas (1930-1935). Lisboa: Ática, 1955.

6.12.17

José Mário Pereira: "O que é um texto literário bom?"



O que é um texto literário bom?

É aquele que se lê com agrado e que convoca à reflexão. Um bom autor maneja bem os recursos de sua língua, e dialoga ao mesmo tempo com a tradição e com os seus contemporâneos.



PEREIRA, José Mário. Entrevista à revista Cândido. Curitiba: Biblioteca Pública do Paraná, dezembro de 2017.

4.12.17

Dylan Thomas: "And death shall have no dominion" / "E a morte não terá domínio"



Eu já havia publicado o extraordinário poema "And death shall have no dominion", de Dylan Thomas, e a bela tradução de Augusto de Campos, mas agora resolvi republicá-los, colocando, entre o original e a tradução, um vídeo, retirado do YouTube, em que se ouve a voz de Dylan Thomas. Leiam e ouçam:



And death shall have no dominion

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.










E a morte não terá domínio

E a morte não terá domínio.
Nus, os mortos há de ser um.
Com o homem ao léu e a lua em declínio.
Quando os ossos são só ossos que se vão,
Estrelas nos cotovelos e nos pés;
Mesmo se loucos, há de ser sãos,
Do fundo do mar ressuscitarão
Amantes podem ir, o amor não.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os turvos torvelinhos do mar
Os que jazem já não morrerão ao vento,
Torcendo-se nos ganchos, nervos a desfiar,
Presos a uma roda, não se quebrarão,
A fé em suas mãos dobrará de alento,
E os males do unicórnio perderão o fascínio,
Esquartejados não se racharão
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Os gritos das gaivotas não mais se ouvirão
Nem as ondas altas quebrarão nas praias.
Onde uma flor brotou não poderá outra flor
Levantar a cabeça às lufadas da chuva;
Embora sejam loucas e mortas como pregos,
Testas tenazes martelarão entre margaridas:
Irromperão ao sol até que o sol se rompa,
E a morte não terá domínio.




THOMAS, Dylan. "And death shall have no dominion" / "E a morte não terá domínio". Trad. Augusto de Campos. In:_____. CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.




2.12.17

Francisco Alvim: "Disseram na Câmara"



Disseram na Câmara

Quem não estiver seriamente preocupado e
perplexo
não está bem informado




ALVIM, Francisco. "Disseram na Câmara". In:_____. Poemas [1968-2000]. São Paulo/Rio de Janeiro: Cosac Naify/7 Letras, 2004.