21.9.17

Ricardo Silvestrin: "deus descansou"



deus descansou
e esse foi seu vacilo
achou que o jogo estava ganho
e o mundo então deu naquilo
deus lavou as mãos
disse se virem
já fiz a minha parte
pensam que é mole
tirar um mundo da cartola
se querem perfeito
nada feito
tô fora
e se foi pelo infinito
sem dar ouvidos
aos gritos
de deus do céu
deus nos proteja
deus nosso senhor
onde anda
por hoje o criador
pelo universo
de banda
gozando a aposentadoria
que ganhou em sete dias
fez um mundo imperfeito
mas bate no peito
e diz
se não gostarem
façam outro
devolução não aceito
já fiz o homem
à minha imagem e semelhança
pra continuar
no meu lugar
a lambança



SILVESTRIN, Ricardo. “deus descansou”. In:_____. Metal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2013.

18.9.17

Octavio Paz: "Escritura"



Escritura

Yo dibujo estas letras
como el día dibuja sus imágenes
y sopra sobre ellas y no vuelve.



Escritura

Desenho estas letras
como o dia desenha suas imagens
e sopra sobre elas e não volta.




PAZ, Octavio. "Escritura". In:_____. Lo mejor de Octavio Paz. El fuego de cada día. Barcelona: Seix Barral, 1998.

15.9.17

Luís de Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



CAMÕES, Luís. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". In:_____. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1980.

12.9.17

Antonio Carlos Secchin: "A gaveta"



A gaveta

A gaveta está trancada,
a chave levou Maria.
Nela guardados os planos
de quem já fui algum dia?
Decerto aí também mora
a linha da pescaria
que mirou no meu futuro,
mas errou a pontaria.
Desconheço se ela abriga
alguma mercadoria
dispondo de mais valor
que um pardal na ventania.
Mas por que agora eu escuto
numa quase litania
as vozes que dela saem
e se engrossam em gritaria?
Chamo então um bom chaveiro
da Europa, Olinda ou Bahia,
para arrombar a gaveta,
pois lá do fundo eu traria
a chave de algum passado
que aprisionado me espia.
Chega um e chegam dez
chaveiros em romaria.
A gaveta a todos eles,
um por um, derrotaria.
São bem fracos contra a força
e a resistência bravia
que a tal fechadura impõe
frente a tal cavalaria.
Na madrugada, cansado
pela perdida porfia,
percebo voando no ar
uma dúbia melodia.
Provém daquela gaveta:
ela afinal me induzia
a entrar sem maior esforço,
já que a mim se entregaria,
e dentro de si guardava
peça de imensa valia;
eu agora nem de chave
nem de nada carecia.
Conseguiu me convencer
com voz bastante macia,
e, pronto para apossar-me
da mais pura pedraria,
abri-a com a mão amante
de quem pisa em joalheria.
O tesouro acumulado
era a gaveta vazia.
Dois insetos passeavam
sobre a superfície fria.



SECCHIN, Antonio Carlos. "A gaveta". In:_____. Desdizer. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.




10.9.17

Ferreira Gullar: "Um pouco antes"



Agradeço a meu amigo Adriano Nunes por me ter lembrado que hoje Ferreira Gullar faria 87 anos. Viva Gullar!



Um pouco antes

Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
                    pensa
                            ao veres no horizonte
                            sobre o mar de Copacabana
                                                          uma nesga azul de céu
                    pensa que resta alguma coisa de mim
                    por aqui
                                Não te custará nada imaginar
                                que estou sorrindo ainda naquela nesga
                                azul celeste
                                pouco antes de dissipar-me para sempre




GULLAR, Ferreira. "Um pouco antes". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

8.9.17

Giuseppe Ungaretti: "Sereno" / "Céu claro": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Sereno

Bosco di Courton Iuglio 1918

Dopo tanta
nebbia
a una
a una
si svelano
le stelle.

Respiro
il fresco
che mi lascia
il colore del cielo,

mi riconosco
immagine
passeggera

Presa in un giro
immortale




Céu claro

Bosque de Courton, julho de 1018

Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal



UNGARETTI, Giuseppe. "Sereno" / "Céu claro". In:_____. A alegria. Edição bilíngüe. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.

6.9.17

António Barbosa Bacelar: "A uma ausência"



A uma ausência

Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem que me entretém me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima á confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim como em deserto.



BACELAR, António Barbosa. "A uma ausência". In: SYLVA, Mathias Pereyra (org.). A Fénis renascida ou obras poéticas dos melhores engenhos portugueses. Ericeira: Officina de António Pedroszo Galrão, 1728.

3.9.17

William Soares dos Santos: "Quando a madrugada"



Quando a madrugada

Quando a madrugada
se
levanta

com todo
o seu esplendor,

ela pergunta
por minha
existência

e eu
não sei
o que digo.


SANTOS, William Soares dos. "Quando a madrugada". In:_____. poemas da meia-noite (e do meio-dia). Belo Horizonte: Editora Moinhos, 2017.
                                                                                                                                                                                                                             

31.8.17

Arthur Nogueira e Fafá de Belém cantam "Consegui"

Meu parceiro Arthur Nogueira acaba de lançar o clip -- com a participação da querida Fafá de Belém -- da canção "Consegui", parceria minha e dele. Vejam:



30.8.17

Aleksandr Puchkin: "Поэтy" / "A um poeta": trad. de José Casado



A um poeta

Não estimes, poeta, o amor da turbamulta.
Passará o eco do exaltado louvor;
Ouve o rir da alma fria e a máxima de estulta,
Mas permanece firme e calmo e superior.

És rei: por livre estrada (a ser nenhum consulta)
Vai ao fim que a razão livre te faz propor;
Frutos a aperfeiçoar da ideia amada, exulta,
Sem prêmios exigir por proezas de valor.

Acha-os em ti. És teu supremo tribunal;
Julga tua criação do modo mais cabal.
Contente dela estás, autocrítico atuante?

Estás? Deves deixar que a chusma a ataque então,
Cuspa no altar de sobre o qual vem teu clarão
E a trípode te abale com pueril desplante.



Поэтy

Поэт! не дорожи любовию народной.
Восторженных похвал пройдет минутный шум;
Услышишь суд глупца и смех толпы холодной,
Но ты останься тверд, спокоен и угрюм.

Ты царь: живи один. Дорогою свободной
Иди, куда влечет тебя свободный ум,
Усовершенствуя плоды любимых дум,
Не требуя наград за подвиг благородный.

Они в самом тебе. Ты сам свой высший суд;
Всех строже оценить умеешь ты свой труд.
Ты им доволен ли, взыскательный художник?


Доволен? Так пускай толпа его бранит
И плюет на алтарь, где твой огонь горит,
И в детской резвости колеблет твой треножник.



PUCHKIN, Aleksandr Segueievitch. "Поэтy" / "A um poeta". In:_____. Poesias escolhidas. Trad. de José Casado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 

27.8.17

Pedro Tamen: "Palavras minhas"



Palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.



TAMEN, Pedro. "Palavras minhas". In:_____. Tábua das matérias (Poemas 1956-1991). Sintra: Tertúlia, 1991.

25.8.17

Ricardo Silvestrin: "Bilhete"



Bilhete

Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.

Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?

Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida



SILVESTRIN, Ricardo. "Bilhete". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

23.8.17

Lúcio Carvalho: "A poesia, a crítica e um tanto mais"


Gostei também do artigo "A poesia, a crítica e um tanto mais", de Lúcio Carvalho, na revista digital "amálgama", editada por Daniel Lopes. Encontra-se aqui:
https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-poesia-e-a-critica-antonio-cicero/ 

Jorge Salomão: "em mim não habita o deserto que há em ti"



em mim não habita o deserto que há em ti
minha alma é um oásis luminoso
você constrói sua jaula, e nela quer ficar
cuidado
eu faço o que acho que deve ser feito na hora certa
existe diferença entre paixão e projeção?
será que terei de me tornar um insensível
só pra suprir a demanda do mercado atual?
quanto mais eu me acho mais eu me perco
que os tambores batam
e que tudo se acenda forte!



SALOMÃO, Jorge. "em mim não habita o deserto que há em ti". In:_____. Mosaical. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

22.8.17

Arthur Nogueira sobre "A poesia e a crítica"



Fiquei muito feliz com o que meu querido amigo e parceiro, Arthur Nogueira, escreveu, para o blog da Companhia das Letras, sobre meu livro "A poesia e a crítica". Fica aqui:
http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Sobre-A-poesia-e-a-critica-de-Antonio-Cicero4

21.8.17

P.B. Shelley: "Lines (That time is dead forever...)" / "Versos (Perdeu-se a era...)": trad. de Adriano Scandolara



Lines (That time is dead for ever...)

That time is dead for ever, child!
Drowned, frozen, dead for ever!
We look on the past
And stare aghast
At the spectres wailing, pale and ghast,
Of hopes which thou and I beguiled
To death on life’s dark river.

The stream we gazed on then rolled by;
Its waves are unreturning;
But we yet stand
In a lone land,
Like tombs to mark the memory
Of hopes and fears, which fade and flee
In the light of life’s dim morning.



Versos (Perdeu-se a era...)

Perdeu-se a era, Ó criança!
gelada, fugaz, perdida!
e vê-se o passado
de olhar assombrado,
enquanto geme o espectro, afogado,
dos nossos devaneios de esperança,
no rio sombrio da vida.

O rio que vimos noutro momento
deságua em tempos de outrora;
e todavia
em terra vazia,
jazemos feito monumentos
de esperança e medo, fugindo lentos
na réstia vital desta aurora.




SHELLEY, P.B. "Lines (That time is dead forever...)". In:_____. Prometeu desacorrentado e outros poemas. Trad. por Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

19.8.17

Roberto Athayde: "Entrementes em Copacabana"





Entrementes em Copacabana

Aquela pessoa na horizontal
Aquele defunto na ciclovia
Lembrete importuno da morte rainha



ATHAYDE, Roberto. "Entrementes em Copacabana". In:_____. Abracadabrante. Rio de Janeiro: Sans Souci, 2001.


18.8.17

Entrevista de Antonio Cicero ao Canal Curta



O excelente Canal Curta acaba de postar no You Tube trechos de uma entrevista que fez comigo por ocasião do lançamento do meu livro mais recente, A poesia e a crítica. Ei-los:

17.8.17

Adriano Nunes: "Erato"

Agradeço a Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte belo poema:



Clique, para ampliar:






NUNES, Adriano. "Erato".



15.8.17

Carlos Drummond de Andrade: "Confissão"



Confissão

É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito,
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Confissão". In:_____. "As impurezas do branco". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguiolar, 1988.

10 fatos sobre Antonio Cicero



Acabo de ver que o site Bol (Brasil On Line) publicou uma matéria intitulada "10 fatos sobre Antonio Cicero, o mais novo imortal do Brasil". Fica aqui: https://noticias.bol.uol.com.br/bol-listas/10-fatos-sobre-antonio-cicero-o-mais-novo-imortal-do-brasil.htm.

11.8.17

Eucanaã Ferraz: "Graça"



Graça

Milhões de palavras derramadas inúteis
mas teu rosto não; árvores tombadas livros
partidos tudo se vende mas teu rosto não;
sangue de cidades e crianças mas teu rosto
segue limpo; em cada canto um inimigo;
no teu rosto não: rosto onde não cabe
a guerra; rosto sem irmão; teu rosto
o teu nome o diz.



FERRAZ, Eucanaã. "Graça". In:_____. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

8.8.17

Jules Laforgue: "Complainte de la bonne défunte" / "Lamento da boa defunta": trad. de Régis Bonvicino




Lamento da boa defunta

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
– Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.




Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient : " J'ai deviné
Hélas! que tu m'as reconnue ! "

Je la suivis illuminé !
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né ?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue ;
Oeillet blanc, d'azur trop veiné ;
Oh ! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
- Oh ! je rentrerai sans dîner !

Vrai, je ne l'ai jamais connue.




LAFORGUE, Jules. "Complainte de la bonne défunte" / "Lamento da boa defunda". In:_____. Litanias da lua. Org. e trad. de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1989. 

6.8.17

Para Suzana Moraes



Minha amiga Susana Moraes, uma das pessoas que mais admirei e amei em toda minha vida, faria aniversário hoje. Abaixo, uma foto de nós dois e um dos poemas que a ela dediquei. 
















Longe
                                    Para Susana Moraes

A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros:
é mesmo errático meu rumo.



5.8.17

Manuel Bandeira: "Soneto inglês nº2"



Soneto inglês nº2

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana,
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança e nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
    Morrer sem uma lágrima, que a vida
    Não vale a pena e a dor de ser vivida.



BANDEIRA, Manuel. "Soneto inglês nº2". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

3.8.17

Jorge Luis Borges: "Camden, 1982": trad. de Augusto de Campos



Camden, 1982

O cheiro do jornal e dos periódicos.
O domingo e seus tédios. A manhã
E na entrevista página essa vã
Publicação de versos alegóricos

De um colega feliz. O homem velho
Está prostrado e branco na decente
Habitação de pobre. Ociosamente
Olha seu rosto no cansado espelho.


Pensa, já sem assombro, que essa cara
É ele. Incerta, a mão acaso toca
A barba turva e a saqueada boca.

Não está longe o fim. Sua voz declara:
Quase não sou, mas os meus versos ritmam
A vida e sua glória. Sou Walt Whitman.




Camden, 1982


El olor del café y de los periódicos.
El domingo y su tedio. La mañana
Y en la entrevista página esa vana
Publicación de versos alegóricos

De un colega feliz. El hombre viejo
Está postrado y blanco en su decente
Habitación de pobre. Ociosamente
Mira su cara en el cansado espejo.

Piensa, ya sin asombro, que esa cara
Es él. La distraída mano toca
La turbia barba y saqueada boca.

No está lejos el fin. Su voz declara:
Casi no soy, pero mis versos ritman
La vida y su esplendor. Yo fui Walt Whitman.




BORGES, Jorge Luis. "Camden, 1982". In:_____. Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista. Org. e trad. de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

1.8.17

Sandra Niskier Flanzer: "In utilizar"



In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bica
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa justo.
Perder, perder, ceder ao outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.




FLANZER, Sandra Niskier. "In utilizar". In:_____. Do quarto. Rio de Janeiro: 7Letras, 2017.

30.7.17

Adriano Nunes: "Ars poetica"

Eis um belo poema que Adriano Nunes dedicou a Adriana Calcanhotto e postou na sua página do Facebook (https://www.facebook.com/adriano.nunes.71):


Ars poetica

               Para Adriana Calcanhotto

Da vez
À voz,
A ver-
Ve de
Viver.

Da voz
À vez,
O ver-
So a
Sorver

O vão,
A vez,
O véu
Da voz,

Do ver.



NUNES, Adriano. "Ars poetica". In:_____. "QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO". In: https://www.facebook.com/adriano.nunes.71. Acessado em 30/07/2017.

28.7.17

Giuseppe Ungaretti: "Noia" / "Tédio": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti



Tédio

Também esta noite passará

Esta solidão em volta
a titubeante sombra dos fios do bonde
sobre o asfalto úmido

Olho as cabeças dos cocheiros
cochilando
balançar





Noia

Anche questa notte passerà

Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull’umido asfalto

Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sonno
tentennare




UNGARETTI, Giuseppe. "Noia" / "Tédio". In:_____. A alegria. Trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.




24.7.17

Omar Salomão: "tempo"



tempo

apenas tempo fosse
o som dos passos repetidos

o rio ainda é rio
e o tempo não vira
não muda, transforma

a escada e os ninhos
o som dos pássaros apenas

sem peso debaixo dos meus pés
ouço a água correr
molho o pulso e a nuca

eu paro sobre o cais
                   minha sombra
                               dança
                              sobre as ondas




SALOMÃO, Omar. "tempo". In:_____. Pequenos reparos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

22.7.17

Nietzsche: III.143 de "A gaia ciência"



143
Grande vantagem do politeísmo. — Que o indivíduo estabelecesse seu próprio ideal e dele derivasse a sua lei, seus amigos e seus direitos — isso talvez fosse considerado, até então,
o mais monstruoso dos equívocos humanos e a idolatria em si; de fato, os poucos que ousaram fazê-lo sempre necessitaram de uma apologia diante de si mesmos, exclamando habitualmente: “Não fui eu! Eu não! Foi um deus através de mim!” Foi na maravilhosa arte e energia de criar deuses — o politeísmo — que esse impulso pôde se descarregar, que ele se purificou, se consumou e enobreceu: pois originalmente era um impulso vulgar e insignificante, ligado à teimosia, à desobediência e à inveja. Ser hostil a esse impulso para um ideal próprio: tal era, então, a lei de toda moralidade. Havia apenas uma norma: “o homem” — e cada povo acreditava possuir essa única e derradeira norma. Mas além de si e fora de si, num remoto sobre-mundo, era permitido enxergar uma pluralidade de normas: um deus não era a negação ou a blasfêmia contra um outro deus! Aí se admitiu, pela primeira vez, o luxo de haver indivíduos, aí se honrou, pela primeira vez, o direito dos indivíduos. A invenção de deuses, heróis e super-homens de toda espécie, e também de quase-homens e sub-homens, de fadas, anões, sátiros, demônios e diabos, foi o inestimável exercício prévio para a justificação do amor-próprio e da soberania do indivíduo: a liberdade que se concedia a um deus, relativamente aos outros deuses, terminou por ser dada a si mesmo, em relação a leis, costumes e vizinhos. Já o monoteísmo, esse rígido corolário da doutrina de um só homem normal — a crença num só deus normal, além do qual há apenas falsos deuses enganadores —, foi talvez o maior perigo para a humanidade até então: ela foi ameaçada pela prematura estagnação que, tanto quanto podemos ver, a maioria das outras espécies animais atingiu há muito tempo; em que todos crêem num só tipo normal e ideal em sua espécie, tendo definitivamente traduzido a moralidade dos costumes em sua carne e seu sangue. No politeísmo estava prefigurada a humana liberdade e variedade de pensamento: a força de criar para si olhos novos e seus, sempre novos e cada vez mais seus; de modo que somente para o homem, entre todos os animais, não existem horizontes e perspectivas eternas.




NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, Livro I, § 143.  

20.7.17

Stefan George: "Komm in den totgesagten park und schau" / "Vem ao parque tido por morto e admira": trad. por Eduardo de Campos Valadares



Vem ao parque tido por morto e admira:
O vislumbre de praias sorridentes ·
O súbito azul na nuvem conspira
Ilumina ilha e trilha iridescentes.

Lá toma o cinza · o amarelo vívido
Do arbusto e bétula · o ar é tépido ·
A rosa tardia ainda floresce ·
Beija a eleita e uma coroa tece ·

A última gérbera não esqueças ·
A púrpura no silvestre sarmento ·
Também o resto de verde ornamento
Nessa outonal face te reconheças.





Komm in den totgesagten park und schau:
Der schimmer ferner lächelnder gestade
Der reinen wolken unverhofftes blau
Erhellt die weiher und die bunten pfade

Dort nimm das tiefe gelb · das weiche grau
Von birken und von buchs · der wind ist lau ·
Die späten rosen welkten noch nicht ganz ·
Erlese küsse sie und flicht den kranz ·

Vergiss auch diese lezten astern nicht ·
Den purpur um die ranken wilder reben ·
Und auch was übrig blieb von grünem leben
Verwinde leicht im herbstlichen gesicht.



GEORGE, Stefan. "Komm in den totgesagten park und schau" / "Vem ao parque tido por morto e admira". Trad. por Eduardo de Campos Valadares. In:_____. Crepúsculo. São Paulo: Iluminuras, 2000.


18.7.17

Antonio Cicero nos "Encontros de Interrogação"



Em 2014, fui convidado por Heloísa Buarque de Hollanda e Lourival Holanda para participar da série de conferências anualmente promovida pelo Itau Cultural com o nome de “Encontros de Interrogação”. O tema era a poesia. Eis a gravação de alguns momentos desse “Encontro”:



16.7.17

João Bandeira: "Se a vida insiste em complicar"



Se a vida insiste em complicar
tua existência
dispensa que ela se explique



BANDEIRA, João. "Se a vida insiste em complicar". In:_____. Quem quando queira. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

13.7.17

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Meio-dia"


Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Meio-dia". In:_____. "Poesia". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.


12.7.17

Poemas de Antonio Cicero no site "A Vida Breve"



Gostei de saber que o site português "A Vida Breve" está a transmitir a gravação de dois poemas meus: "Diamante" (do livro Porventura) e "Dilema" (do livro Guardar). Encontram-se aqui:

https://www.rtp.pt/play/p1109/e297851/a-vida-breve

11.7.17

Margarida Patriota: "Penumbrismo"



Penumbrismo

Nem trevas, nem luz
Nem gelo, nem lava
Trégua no campo das bravatas
Cessar fogo nas trincheiras da Luta

Penumbra, loção neutra
Banho morno benfazejo
Aplaca a pele que ontem ardeu
E há de arder amanhã

Faze esquecer que no futuro
Hostes rivais
Da tradição e da ruptura
Retomarão hostilidades

Extremas



PATRIOTA, Margarida. "Penumbrismo". In:_____. Laminário. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017.

9.7.17

Hölderlin: "Da ich ein Knabe war..." / "Quando era menino": trad. de Paulo Quintela


Quando era menino...

   Quando era menino,
      Salvou-me um deus muita vez
        Da gritaria e dos açoites dos homens,
           E então brincava seguro e bem
             Com as flores do bosque,
                E as brisas do céu
                  Brincavam comigo.

E assim como alegras
O coração das plantas,
Quando elas te estendem
Os braços tenros,

Assim me alegraste o coração,
Pai Hélios! e, como Endymion,
Era eu o teu amado,
Lua sagrada!

Ó vós todos, fiéis,
Amigos deuses!
Se vós soubésseis
Como a minha alma vos amou!

É verdade que então vos não chamava
Ainda pelos nomes, e vós também
Nunca me nomeáveis, como os homens se nomeiam,
Como se se conhecessem.

Mas conhecia-vos melhor
Do que jamais conheci os homens;
Entendia o silêncio do Éter;
Palavras dos homens nunca as entendi.

A mim criou-me a harmonia
Do bosque sussurrante
E aprendi a amar
Entre as flores.
Foi nos braços dos deuses que eu cresci.



Da ich ein Knabe war...

    Da ich ein Knabe war,
      Rettet' ein Gott mich oft
        Vom Geschrei und der Rute der Menschen,
          Da spielt ich sicher und gut
            Mit den Blumen des Hains,
              Und die Lüftchen des Himmels
                Spielten mit mir.

    Und wie du das Herz
    Der Pflanzen erfreust,
    Wenn sie entgegen dir
    Die zarten Arme strecken,

    So hast du mein Herz erfreut,
    Vater Helios! und, wie Endymion,
    War ich dein Liebling,
    Heilige Luna!

    O all ihr treuen
    Freundlichen Götter!
    Daß ihr wüßtet,
    Wie euch meine Seele geliebt!

    Zwar damals rief ich noch nicht
Euch mit Namen, auch ihr
    Nanntet mich nie, wie die Menschen sich nennen,
    Als kennten sie sich.

    Doch kannt ich euch besser,
    Als ich je die Menschen gekannt,
    Ich verstand die Stille des Aethers,
    Der Menschen Worte verstand ich nie.

    Mich erzog der Wohllaut
    Des säuselnden Hains
    Und lieben lernt ich
    Unter den Blumen.

    Im Arme der Götter wuchs ich groß.


HÖLDERLIN, Friedrich. "Da ich ein Knabe war..." / "Quando era menino...". In_____. Hölderlin: poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959. 



8.7.17

Jorge Furtado sobre o show "Dois Irmãos", de Marina e Antonio Cicero


Quinta-feira passada, Marina e eu fizemos um show, intitulado "Dois Irmãos", em Porto Alegre, em que lembramos como se deu nossa parceria. Fiquei feliz com o comentário que, no dia seguinte, Jorge Furtado, grande diretor e roteirista de cinema e televisão, fez, no Facebook (https://www.facebook.com/jorge.furtado.52) sobre o show. É o seguinte:

Porto Alegre ontem viveu um grande momento com o show "Dois Irmãos", de Marina Lima e Antonio Cícero na Reitoria da UFRGS, um momento de beleza e poesia que nos lembra o que o Brasil tem de melhor. Marina encantou a todos com suas belíssimas canções e a mim surpreendeu tocando violão com maestria, só tinha visto shows dela com grandes bandas e não sabia que ela tocava tão bem. Antonio Cícero é um grande poeta e muito bem humorado, poderia passar a noite toda ouvindo seus versos e histórias.

Há um momento do show em que ele lê um texto não escrito por ele e ela canta uma música que não é parceria dos dois. Talvez não por coincidência, Marina cantou "Pessoa", do Dalto e Antonio Cícero leu um texto do Fernando Pessoa que eu não conhecia, muito bom.

"Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade. "


Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'



6.7.17

Ricardo Silvestrin: "pedra dentro do mar"



pedra dentro do mar
a onda passa
a pedra dura



SILVESTRIN, Ricardo. "pedra dentro do mar". In:_____. Prêt-à-porter: haicais para as quatro estações. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2017.

3.7.17

Alice Sant'Anna: "desenhava tudo o que via"



desenhava tudo o que via
com uma estranha compulsão
passava cinco, seis horas na frente
de um quadro, uma maçaneta, um pastel de nata
completamente absorto
sacava do bolso o lápis
corria para rabiscar, depois anotava
a data ao lado, a rua, nada
se perdia no caderno
enquanto isso eu aflita queria repetir
o gesto, documentar tudo, dizer do gosto
da canela no pastel de nata
do primeiro dia azul de lisboa
mas não escrevia e com pressa para registrar
me tornava burocrática
no diário: hoje fomos de trem, estava quente




SANT'ANNA, Alice. "desenhava tudo o que via". In_____. Rabo de baleia. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

25.6.17

Alberto Pucheu: "Viagem aos 18 ou 19 anos"



Viagem aos 18 ou 19 anos

havia uma paisagem de pintura chinesa
ou japonesa, dessas em que o nanquim abre
um vazio branco por toda a montanha
e pelo lago no qual, em tempos passados,
distante, um pescador pescava solitário
em sua canoa, sem mais ninguém por ali.

havia uma floresta em plena cidade
invisível, na qual, em tempos passados,
inadequado à tarefa que lhe fora incumbida,
um temeroso soldado buscava — solitário —
fugir de uma guerra que por ali guerreavam,
alcançando o muro que limitava a mata e ele.

havia, desta vez, não uma imagem ou outra
qualquer, mas somente uma sensação
tão viva e, mesmo, uma certeza (a lhe invadirem)
de ser esta, a atual, sua terceira vida,
ainda que nenhuma dica lhe fosse dada
para ajudá-lo a vivê-la um pouco melhor.

havia, então, a última, que estava por vir,
apenas um brilho de luz prateada, chegando
de todos os lados para se concentrar
em um foco nítida e densamente coeso
que logo explodia, lançando seus estilhaços
excentricamente em todas as direções.




PUCHEU, Alberto. "Viagem aos 18 ou 19 anos". In:_____. para que poetas em tempos de terrorismo? Rio de Janeiro: Azougue, 2017.

24.6.17

Octavio Paz: "Aquí"



Aqui

Meus passos nesta rua
ressoam
           noutra rua
onde
         ouço meus passos
passarem nesta rua
onde
Só é real a névoa




Mis pasos en esta calle
resuenan
             en otra calle
donde
         oigo mis pasos
pasar en esta calle
donde
Sólo es real la niebla.



PAZ, Octavio. "Aquí". In:_____. "Días hábiles". In:_____. Obra poética I (1935-1970). México: FCE, Círculo de Lectores, 1997.

23.6.17

Domício Proença Filho: "Asilo"



Asilo

Se o sonho,
fraturada primavera,
não retorna
O que fazer do inverno?

Ressonhar o verão,
talvez o outono,
saciar-se com o gosto
de alguma brisa
carícia na face rude
do tempo.




PROENÇA FILHO, Domício. "Asilo". In:_____. O risco do jogo. São Paulo: Prumo, 2013.

17.6.17

Manno Góes: "O devido pagamento"

Excelente artigo de Manno Góes, publicado em O Globo de hoje:



O devido pagamento


É fato que a música é elemento primordial na caracterização de uma cultura, de um povo e suas manifestações artísticas. Através de canções, uma nação se expressa, se comunica com o mundo e atrai atenção às características regionais de sua origem. Não há ninguém que não ouça um reggae e não se lembre da Jamaica; um jazz e não se lembre de Nova Orleans; um rock e não se lembre de Londres; uma salsa e não se lembre de Cuba; um samba-reggae e não se lembre da Bahia; um samba ou uma bossa nova e não se lembre do Rio.

A música estabelece identidades culturais próprias, originais, criando padrões de cidadania e aspectos preciosos de influências e significados de uma região.

E por detrás de cada canção há um autor. Uma semente. O autor é a semente. Simples assim. Sem o criador, não haveria Spotify, Apple Music, YouTube, bandas de rock — ou deuses: não haveria Lennon e McCartney. Roberto e Erasmo. Caetano e Gil. Cazuza ou Renato Russo. Felizmente, a lista é quase interminável. Não haveria a quem agradecer pela criação de versos, frases e melodias que transformam gerações. Que mudaram vidas. Porque o papel da arte é esse: transformar. Transformar-se.

Não haveria Semana de Arte Moderna em 22 sem Oswald de Andrade; não haveria tropicália sem os baianos e Oiticica, nem haveria Tom Zé; ou Raul, ou João Gilberto ou Fernando Brant, sem o poder infinito da criação.

Por compreender que a criatividade é o pó mágico do Peter Pan; a asa do avião, o software do aparelho celular, nós, autores, precisamos de coerência e respeito.

Nossa atividade é subjetiva e abstrata. Porém, não há nada mais real e tátil no mundo do que a importância da criação. Não somos autores apenas. Somos atores na construção de um mundo que reconhece que a arte não seria uma das maravilhas do mundo se não existíssemos.

E, mais do que isso: somos humanos. Pessoas com pulmões, coração e sentimentos. Precisamos de oxigênio e água. E comida. E arte. E remuneração digna pelo que fazemos.

Precisamos de compreensão, afagos, carinho. Proteção. Direitos autorais são, antes de tudo, amor à arte. Alegar que é necessário isentar hotéis, motéis e pousadas de pagamentos autorais para impulsionar o turismo — como pretende o PL 3968, da deputada Renata Abreu — é desconectar a cultura do lazer. Segundo o Ecad, a parlamentar é detentora de redes de rádios inadimplentes com os autores; sua iniciativa causará um prejuízo anual aos autores de cerca de R$ 200 milhões. Agir assim é desconhecer que um elemento poderosíssimo de atração turística são justamente a música e as manifestações culturais de um lugar. É contraditório e irresponsável. É afirmar que a música não é tão importante assim. E quem acha que a música não tem tamanha importância no seu poder de atração e sedução comete um grave equívoco.

O Brasil e sua maravilhosa diversidade cultural oferecem atrativos infinitos para quem vem nos visitar. Além de nossas praias, florestas, montanhas, gastronomia, danças, festas, cores e sincretismo religioso, somos um país de intensa produtividade musical. Não cabe aos autores pagar o preço do que não lhes é devido. Nosso turismo precisa de nossa música. E nossos autores precisam ser remunerados por quem oferece suas canções aos turistas.


Manno Góes é compositor


Anna Akhmatova: "Я пришла к поэту в гости" / "Cheguei de visita ao poeta": trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Ditriev



Cheguei de visita ao poeta

                                          Para Alexandre Blok

Cheguei de visita ao poeta.
Meio-dia em ponto. Domingo.
Silêncio na ampla sala,
Além das janelas frio

E um sol cor de framboesa
Sobre farrapos gris de fumo...
E o dono olha calado
Para mim limpidamente!

São tais os olhos que tem
Que ninguém os deve esquecer,
Para mim é melhor, à cautela,
De modo algum os fitar.

Mas será lembrado o diálogo,
O dia fumoso, o domingo
Na casa alta e cinzenta

Às portas de mar do Neva.



Я пришла к поэту в гости.

                                            Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня.

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье,
В доме сером и высоком

У морских ворот Невы.


AKHMATOVA, Anna. "Я пришла к поэту в гости" / "Cheguei de visita ao poeta". Trad.: Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. In:_____. Poemas. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.

15.6.17

Frank O'Hara: "Autobiographia literaria": Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Autobiographia literaria

Quando era menino eu
brincava sozinho num
canto do pátio da escola
sem ninguém.

Odiava bonecas e
odiava jogos, os bichos eram
hostis e os pássaros
fugiam.

Se alguém me procurava
eu me escondia atrás de uma
árvore e gritava "Sou
um órfão."

E olha eu aqui, o
centro de toda beleza!
escrevendo estes versos!
Imagina!




Autobiographia literaria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan."

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!



O'HARA, Frank. "Autobiographia literaria". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.


13.6.17

Ricardo Silvestrin: "O menos vendido"



O menos vendido

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.



SILVESTRIN, Ricardo. "O menos vendido". In:_____.O menos vendido. São Paulo: Nankin Editorial, 2006.

10.6.17

Manuel Alegre: "Trova do vento que passa"



Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.



ALEGRE, Manuel. "Trova do vento que passa". In:_____. Obra poética. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998.



7.6.17

Souza Anamari: Poema


Alguém me enviou um link para o seguinte vídeo, no YouTube. 

Pesquisando na Internet, li, no site Almanaque Cultural Brasileiro (http://almanaquenilomoraes.blogspot.com.br/2016/10/tetras-religiosas.html) o seguinte sobre essa moça:

Mariana Souza, de São Paulo, que também assina como Souza Anamari, tem 20 anos, é artesã, 
e está rodando o mundo da internet com um poema sobre intolerância religiosa capaz de 
encher de emoção o coração de qualquer um. Anamari afirma já ter sofrido preconceito 
religioso e foi uma situação assim que serviu de inspiração para o poema: "Tudo começa 
pelo respeito".





Carlos Drummond de Andrade: "Encontro"



Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

5.6.17

Emily Dickinson "The heart asks Pleasure" / "Quer-se o Prazer": trad. por Augusto de Campos



23

The heart asks Pleasure – first –
And then – Excuse from pain –
And then – those little Anodynes
That deaden suffering –
 
And then – to go to sleep–      
And then – if it should be
The will of its Inquisitor
The Luxury to die –


23

Quer-se o Prazer – antes –
Depois – não sentir Dor –
Depois – alguns Calmantes
Para lhe contrapor –

Depois – adormecer –
Depois – se bem prouver
Ao seu Inquisidor
O Luxo de morrer –



DICKINSON, Emily. "The hear asks Pleasure" / "Quer-se o prazer". In:_____. Não sou ninguém. Poemas. Trad. de Augusto de Campos. Campinas: Unicamp, 2015.

2.6.17

Deado Lara: "Mera fantasia"



Mera fantasia

O que
Sobrou
Da velha-guarda
Capengando

Por aí,
Sob a geometria
Indecifrável
Das estrelas,

Agarrado
Ao cobertor
Miserável,
Que a boca

Da noite
Já vai consumindo
Por uma estrada
De Minas.



LARA, Deado. "Mera fantasia". In:_____. Uma canção para o Ira. São Lourenço: Gráfica Novo Mundo, 2016.

31.5.17

Stefan George: "Nacht-Gesant I" / "Canto noturno I": trad. Eduardo de Campos Valadares


Canto noturno I

Mel e medo
Sou avesso
Orla e rumo
Meu destino.

Chuva e outono
Com a morte
Brilho e flor
Com a vida.

O que fiz
O que ardi
O que sei
O que sou:

Um incêndio
Que se apaga
Uma canção
Que se acaba.



Nacht-Gesang I

Mild und trüb  
Ist mir fern,  
Saum und Fahrt  
Mein Geschick.   

Sturm und Herbst  
Mit dem Tod, 
Glanz und Mai  
Mit dem Glück.   

Was ich tat,  
Was ich litt,  
Was ich sann,  
Was ich bin:   

Wie ein Brand  
Der verraucht,  
Wie ein Sang  
Der verklingt.



GEORGE, Stefan. "Nacht-Gesang I" / "Canto Noturno I". In:_____. Crepúsculo. Seleção, ensaio e tradução de Eduardo de Campos Valadares. São Paulo: Iluminuras, 2000.




28.5.17

Adriano Nunes: "A sorte de ser ninguém"

No dia do aniversário do poeta Adriano Nunes, desejo-lhe muita
felicidade e poesia, e tenho o prazer de publicar aqui o belíssimo 
poema que ainda ontem ele me enviou:




A sorte de ser ninguém

                                para meu amigo, o poeta português 
                                                  Tiago Torres da Silva

Nesta tarde de nada mesmo importar,
Poderia tecer outro soneto
De amor ou de ilusão, criar um mar
De imagens sem fim, de mim repleto,

Ou, quem sabe, a canção que, já no ar,
Deixa-se desfazer, por ser, decerto,
O certo a acontecer, para alargar
O lugar do devir, estar desperto.

Ah, fome de ninguém ser desde já!
Ah, gozo de ninguém ser por completo!
Dize-me, coração, ser em que dá?

Nesta tarde de vácuos, sou objeto
Das minhas esperanças, obsoleto,
A sorte de ninguém ser, aqui, lá.



NUNES, Adriano. "A sorte de ser ninguém"

24.5.17

Nuno Rau: "today, that's the question"



today, that’s the question

                                                                      para Geraldo Carneiro

a forma fixa: o conteúdo não
a mente é livre, o pensamento inquieto,
e exposto a mais esta contradição
cometo – extemporâneo – outro soneto.
O que me trouxe o uso da Razão
não sei dizer se é bom ou mau, exceto
que me arranharam fundo o coração
uns versos íntimos, um mal secreto.
Nunca aceitei o Tempo que me coube
ou por erro escolhi – e ser barroco,
parnasiano, moderno, pop, concreto,
no meu to be or not eu nunca soube:
“a vida, com seu desconcerto louco,
fugiu de vez da cela dos sonetos?”



RAU, Nuno. "today, that's the question". In:_____. Mecânica aplicada. São Paulo: Patuá, 2017.

20.5.17

Sandra Niskier Flanzer: "Tocar de ouvido"



Tocar de ouvido

Durante tempos cultivei sabedoria,
Tentada a convencer-me que a agarrava,
Tentando demover-me da empáfia convencida
De supor que inspiração não se pegava.
Ora, cansei de ir contra a natureza das mãos.
Cansei dos falsos toques, dados no saber sem vida.
Se hoje escrevo, como quem toca de ouvido,
É porque me tocam as coisas que ouço.
Ouço as coisas que toco e, pronto, escrevo.
No mais, é só o de menos.



FLANZER, Sandra Niskier. "Tocar de ouvido". In:_____. Por um, segundo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.

18.5.17

Antonio Carlos Secchin: "A gaveta"



A gaveta

A gaveta está trancada,
a chave levou Maria.
Nela guardados os planos
de quem já fui algum dia?
Decerto aí também mora
a linha da pescaria
que mirou no meu futuro,
mas errou a pontaria.
Desconheço se ela abriga
alguma mercadoria
dispondo de mais valor
que um pardal na ventania.
Mas por que agora eu escuto
numa quase litania
as vozes que dela saem
e se engrossam em gritaria?
Chamo então um bom chaveiro
da Europa, Olinda ou Bahia,
para arrombar a gaveta,
pois lá do fundo eu traria
a chave de algum passado
que aprisionado me espia.
Chega um e chegam dez
chaveiros em romaria.
A gaveta a todos eles,
um por um, derrotaria.
São bem fracos contra a força
e a resistência bravia
que a tal fechadura impõe
frente a tal cavalaria.
Na madrugada, cansado
pela perdida porfia,
percebo voando no ar
uma dúbia melodia.
Provém daquela gaveta:
ela afinal me induzia
a entrar sem maior esforço,
já que a mim se entregaria,
e dentro de si guardava
peça de imensa valia;
eu agora nem de chave
nem de nada carecia.
Conseguiu me convencer
com voz bastante macia,
e, pronto para apossar-me
da mais pura pedraria,
abri-a com a mão amante
de quem pisa em joalheria.
O tesouro acumulado
era a gaveta vazia.
Dois insetos passeavam
sobre a superfície fria.



SECCHIN, Antonio Carlos. "A gaveta". In: Mallarmagens. Revista eletrônica de poesia e arte contemporânea. URL: http://www.mallarmargens.com/2017/05/a-c-secchin-ineditos.html?q=Secchin. Acessado em 17/05/2017.




16.5.17

Abel Silva: "O pássaro da poesia"



O pássaro da poesia
O pássaro da poesia
soma de tanta asa
tanta pena
tanta amplidão,
é animal de grande potência
e autonomia,
os poetas, não.

Gotas de sangue eles são
nas veias do Pássaro-Mãe
e têm de cuidar de si
e do ávido bico materno
que se alimenta
dos filhos que gera.

Voa a Poesia
as grandes asas sombreando os caminhos.
O poeta vai a pé
sob olhares e zumbidos
junto a invisíveis muradas.

Sente frio
sob o sol
sente febre
e solidão.
Por onde vai os dedos apontam o vagabundo,
ele prossegue, entretanto.
É seu destino.
E ele não o troca
por nada deste mundo.



SILVA, Abel. "O pássaro da poesia" In:_____. PoemAteu. São Paulo: 7 Letras, 2011.


14.5.17

Abel Silva na Ocupação Poética do Teatro Cândido Mendes



















Nesta segunda (15), às 20h, o teatro do Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema, receberá a 9ª edição do projeto Ocupação Poética, dedicada ao grande poeta e letrista da música popular brasileira, ABEL SILVA. Com leituras de parte de sua obra poética e interpretações de alguns de seus sucessos musicais, a noite contará com as participações especiais de ilustres amigos e parceiros do homenageado como o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero; o cantor e compositor Geraldo Azevedo; o poeta e jornalista Christovam de Chevalier; a poeta, atriz, cantora e dramaturga Elisa Lucinda; a atriz, escritora e jornalista Tessy Callado. A coordenação é do poeta e jornalista Paulo Sabino, que também participa da homenagem.

13.5.17

Francisco Bosco: "Da Amizade"



Da Amizade

Não é pelo saber nele encerrado,
mas sim pelo sabor da língua antiga

– qual num palimpsesto culinário,
na língua nova a língua traduzida:

os nomes próprios são especiarias,
Tibério, Caio Lélio, Cipião,

são como mariscos pescados nas ilhas,
aura e sal conservados no som –,

que a leitura do Da Amizade,
de Marco Túlio Cícero, o romano,

portanto é menos uma aprendizagem,
que um pequeno rito gastronômico:

é como se comêssemos um prato
envolto em naufrágios e segredos

– os cozinheiros estão todo mortos,
os livros, porém, guardam a receita.



BOSCO, Francisco. "Da Amizade". In:_____. Da Amizade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

10.5.17

Charles Baudelaire: "Spleen (III)": trad. de Guilherme de Almeida



Spleen (III)

Je suis comme le roi d'un pays pluvieux,
Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très vieux,
Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,
S'ennuie avec ses chiens comme avec d'autres bêtes.
Rien ne peut l'égayer, ni gibier, ni faucon,
Ni son peuple mourant en face du balcon.
Du bouffon favori la grotesque ballade
Ne distrait plus le front de ce cruel malade ;

Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,
Et les dames d'atour, pour qui tout prince est beau,
Ne savent plus trouver d'impudique toilette
Pour tirer un souris de ce jeune squelette.
Le savant qui lui fait de l'or n'a jamais pu
De son être extirper l'élément corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,
Il n'a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé.





Spleen (III)

Sou como o pobre rei de algum país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que as lisonjas dos preceptores desprezando
Vai com seus animais, com seus cães se enfadando.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,
Nem seu povo morrendo em frente do balcão.
Do jogral favorito a grotesca balada
Não mais lhe desenruga a fronte acabrunhada;

Todo flores-de-lis, é um mausoléu seu leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Já não sabem que traje impudico vestir
Para fazer esse esqueleto moço rir.
O sábio, que fabrica o seu ouro, em vão luta
Por lhe extirpar do ser a matéria corrupta,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Conseguiu aquecer essa carcaça insulsa
Onde, em lugar de sangue, a água do Lete pulsa.




BAUDELAIRE, Charles. "Spleen (III)". In: ALMEIDA, Guilherme (org. e trad.). Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.

7.5.17

Luis Cernuda: "El amor y el amante" / "O amor e o amante": trad. Antonio Cicero


El amor y el amante

¿Eres amor? Pasa el fuego,
Cruza con alas el mar,
Despierta a la vida en el sueño,
Da hermosura a lo real.

¿Eres tan sólo la sombra?
Cubre con tu resplandor
Tu mentira. Haz que la sombra
Venza al fuerte, al puro amor.



CERNUDA, Luis. "El amor y el amante". In:_____. "La realidad y el deseo". In:_____. Poesía completa.  Org. por Derek Harris e Luis Maristany. Madrid: Siruela,1993.




O amor e o amante

És mesmo amor? Passa o fogo
Cruza com asas o mar,
Desperta na vida o sonho,
Dá formosura ao real.

Ou és apenas a sombra?
Cobre com teu resplendor
Tua mentira: que a sombra
Vença o forte, o puro amor.



Tradução por Antonio Cicero

4.5.17

Armando Freitas Filho: "Outra receita"



Outra receita

Da linguagem, o que flutua
ao contrário do feijão à João
é o que se quer aqui, escrevível:
o conserto das palavras, não só
o resultado final da oficina
mas o ruído discreto e breve
o rumor de rosca, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo -
o eco, o feno, a palha, o leve -
até para efeito de contraste
para fazer do peso - pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
para manter a atenção de quem lê
como isca, como risco, a ameaça
do que está no ar, iminente.



FREITAS FILHO, Armando. "Outra receita". In:_____. Raro mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

2.5.17

Caetano Veloso entrevistado por Marjorie Perloff



No ano passado, Caetano Veloso compareceu à convenção da Modern Language Association, em Austin, no Texas, a convite do Presidente dessa instituição, Roland Greene, para ser entrevistado pela grande crítica literária norte-americana, Marjorie Perloff. Quem quiser assistir a essa extraordinária entrevista (em inglês), pode fazê-lo no seguinte site: http://arcade.stanford.edu/content/artist-interpreter-caetano-veloso-mla-2016-0.


1.5.17

Pedro Tamen: "Linneu"


Linneu

A minha profissão é dar-lhes nomes.
Tal como o outro, passados os seis dias,
foi tudo achando bem, e disse
que era bom, e o chamou,
assim, no bom ou mau,
eu dou nomes à vida, digo
esta é a rosa dos ventos, digo
esta é a flor das águas, digo
esta é a planta do teu pé.

Apenas digo nomes: tudo existe
muito senhor de si,
tudo existe insolente,
independente.

Não era necessário eu ter nascido.



TAMEN, Pedro. "Linneu". In:_____. Analogia e dedos. Lisboa: Oceanos, 2006.


29.4.17

Giacomo Leopardi: "L'Infinito" / "O Infinito": trad. de Nelson Ascher

Agradeço ao poeta Nelson Ascher por me ter enviado a seguinte belíssima tradução que ele fez do clássico poema de Leopardi "L'INFINITO":


O INFINITO

Volto sempre a esta encosta solitária
e gosto até da sebe que me encobre
em boa parte o extremo do horizonte.
Porém, sentado e olhando, eu infindáveis 
espaços muito além e sobre-humanos
silêncios e as quietudes mais profundas
formo ao pensar, a ponto de que o peito
por pouco não se alarma. E ouvindo folhas
farfalharem ao vento, esta voz logo
comparo com aqueles infinitos
silêncios, e me assoma a eternidade
e as eras que passaram e esta nossa,
viva e ruidosa. Então meu pensamento
se afoga nessa imensidade toda:

e é doce naufragar num mar assim.



L'INFINITO

Sempre caro  mi fu quest’ermo colle, 
e questa siepe, che da tanta parte 
dell’ultimo orizzonte il guardo esclude. 
Ma sedendo e mirando, interminati 
spazi di là da quella, e sovrumani 
silenzi, e profondissima quïete 
io nel pensier mi fingo, ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento 
odo stormir tra queste piante, io quello 
infinito silenzio a questa voce 
vo comparando: e mi sovvien l’eterno, 
e le morte stagioni, e la presente 
e viva, e il suon di lei. Così tra questa 
immensità s’annega il pensier mio: 
e il naufragar m’è dolce in questo mare.


LEOPARDI, Giacomo. "L'Infinito". In:_____. "Canti". In:_____. Opere di Giacomo Leopardi. Org. por Giovanni Getto. Milano: Ugo Mursia, 1975. 

27.4.17

Luis Turiba: "Geominerografia"


Geominerografia

pedras que rolam
minas que minam

sertões descampados
veredas rochosas
montanhas manhosas
rios infindos
correntes transbordantes
grutas e cachoeiras
águas cristalindas

atravessar minas
é surfar pelas páginas
de Guimarães Rosa



TURIBA, Luis. "Geominerografia". In:_____. "Ser minério é coisa séria". In:_____. Qtais. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.




25.4.17

João Pedro Fagerlande recita o poema "Guardar", de Antonio Cicero


Gostei muito da interpretação de João Pedro Fagerlande do meu poema "Guardar". Encontra-se aqui:





23.4.17

"Tudo é irrelevante"


Hoje às 19h, no Espaço Itaú de Cinema 6, no Rio de Janeiro, será exibido, como parte do festival "É tudo verdade", o documentário de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan "Tudo é irrelevante", sobre o grande pensador brasileiro Helio Jaguaribe.



Lêdo Ivo: "Soneto de ninar"



Soneto de ninar

Dorme, oceano.
Minha canção te embala
na treva lacerada
pelas constelações.

Dorme, doce terra impura.
Minha canção te cinge,
leve gesto de amor
na escuridão.

Dorme, vento
que suspende as árvores
no ar.

Durmam até as pedras
repousadas e felizes
em seu sono de pedra.



IVO, Lêdo. "Soneto de ninar". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

21.4.17

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Não torna ao ramo a folha que o deixou"



Não torna ao ramo a folha que o deixou, (28-9-1926)

Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
        Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
        Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
        Deuses em quem o empregue.



PESSOA, Fernando. "Não torna ao ramo a filha que o deixou". In:_____. Poemas de Ricardo Reis. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.

18.4.17

Jorge Luis Borges: "El suicida"



El suicida

No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.




O suicida

Não ficará na noite uma estrela.
Não ficará a noite.
Morrerei e comigo a soma
Do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
Os continentes e as caras.
Apagarei a acumulação do passado. 
Farei pó a história, pó o pó.
Estou olhando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.



BORGES, Jorge Luis. "El suicida". In:_____. "La rosa profunda". In:_____. Obras completas. 1975-1985. Vol.2. Buenos Aires: Emecé, 1989. 




16.4.17

Ferreira Gullar: "Dois poetas na praia"



Dois poetas na praia

É carnaval,
a terra treme:
um casal de poetas conversa
na praia do Leme!

Falam os dois de poesia
e dos banhistas
que nunca lerão Drummond nem Mallarmé.
– E lerão o meu poema?
pergunta ela.
– Alguém vai ler.
– Pois mesmo que não leia
não vou deixar de dizer
o que vejo nesta areia
que eles pisam sem ver.

E o poeta mais velho
sorri confortado:
a poesia está ali
renascida a seu lado.



GULLAR, Ferreira. "Dois poetas na praia". In:_____. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

12.4.17

Jacques Prévert: "Le cancre" / "Juquinha": trad. de Silviano Santiago


Le cancre

Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le cœur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.



Juquinha

Diz não com a cabeça
diz sim com o coração
diz sim ao que ama
diz não ao professor
está de pé
sendo arguído
e todas as perguntas lhe são feitas
de repente morre de rir
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do professor
debaixo da vaia dos meninos prodígios
no quadro- negro da desgraça
com giz de todas as cores
desenha o rosto da felicidade.




PRÉVERT, Jacques. "Le cancre" / "Juquinha". Poemas. Seleção e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

9.4.17

Bill Knott: "Death"


Morte

Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito.
Colocarão minhas mãos assim.
Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo.


Death

Going to sleep, I cross my hands on my chest.
They will place my hands like this.
It will look as though I am flying into myself.



KNOTT, Bill. "Death". In:_____. I am flying into myself: selected poems, 1960-2014. Org. por Thomas Lux. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2017.

7.4.17

Antônio Olinto: "Teoria do homem"



Teoria do homem

O começo do homem é o fim do homem
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o medo é o muro o muro é o vulto
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.



OLINTO, Antônio. "Teoria do homem". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2004.

5.4.17

Seamus Heaney: "Arion" / "Aríon": trad. de Rui Carvalho Homem


Aríon

Todos estávamos em grande afã lá no barco,
Alguns em cima esticando as velas,
Outros em baixo no puxa e empurra
Dos bancos de remador, com pesada carga,
A quilha firme no mar, singrando em silêncio,
O timoneiro jovial ao leme;
E eu, que achava estar tudo garantido,
Cantava para os marinheiros.
                                            E de súbito,
Vento tumultuoso, um turbilhão:
O timoneiro e os marinheiros morreram.
Só eu, cantando ainda, lançado
À praia pela longa vaga marinha, prossigo
O meu canto, um mistério para o meu ser de poeta,
E são e salvo debaixo de uma falésia
Estendo as minhas roupas molhadas ao sol.


                                     do russo de Alexandre Puchkin




Arion

We were all hard at it in the boat,
Some of us up tightening sail,
Some down at the heave and haul
Of the rowing benches, deeply cargoed,
Steady keeled, our passage silent,
The helmsman buoyant at the helm;
And I, who took it all for granted,
Sang to the sailors.
                                Then turbulent
Sudden wind, a maelstrom:
The helmsman and the sailors perished.
Only I, still singing, washed
Ashore by the long sea-swell, sing on,
A mystery to my poet self,
And safe and sound beneath a rock shelf
Have spread my wet clothes in the sun.


                                    from the Russian of Alexader Puchkin




HEANEY, Seamus. "Arion" / "Aríon". In:_____. Electric light. Trad. de Rui Carvalho Homem. Vila Nova de Famalicão: Quasi, s.d.