28.5.17

Adriano Nunes: "A sorte de ser ninguém"

No dia do aniversário do poeta Adriano Nunes, desejo-lhe muita
felicidade e poesia, e tenho o prazer de publicar aqui o belíssimo 
poema que ainda ontem ele me enviou:




A sorte de ser ninguém

                                para meu amigo, o poeta português 
                                                  Tiago Torres da Silva

Nesta tarde de nada mesmo importar,
Poderia tecer outro soneto
De amor ou de ilusão, criar um mar
De imagens sem fim, de mim repleto,

Ou, quem sabe, a canção que, já no ar,
Deixa-se desfazer, por ser, decerto,
O certo a acontecer, para alargar
O lugar do devir, estar desperto.

Ah, fome de ninguém ser desde já!
Ah, gozo de ninguém ser por completo!
Dize-me, coração, ser em que dá?

Nesta tarde de vácuos, sou objeto
Das minhas esperanças, obsoleto,
A sorte de ninguém ser, aqui, lá.



NUNES, Adriano. "A sorte de ser ninguém"

24.5.17

Nuno Rau: "today, that's the question"



today, that’s the question

                                                                      para Geraldo Carneiro

a forma fixa: o conteúdo não
a mente é livre, o pensamento inquieto,
e exposto a mais esta contradição
cometo – extemporâneo – outro soneto.
O que me trouxe o uso da Razão
não sei dizer se é bom ou mau, exceto
que me arranharam fundo o coração
uns versos íntimos, um mal secreto.
Nunca aceitei o Tempo que me coube
ou por erro escolhi – e ser barroco,
parnasiano, moderno, pop, concreto,
no meu to be or not eu nunca soube:
“a vida, com seu desconcerto louco,
fugiu de vez da cela dos sonetos?”



RAU, Nuno. "today, that's the question". In:_____. Mecânica aplicada. São Paulo: Patuá, 2017.

20.5.17

Sandra Niskier Flanzer: "Tocar de ouvido"



Tocar de ouvido

Durante tempos cultivei sabedoria,
Tentada a convencer-me que a agarrava,
Tentando demover-me da empáfia convencida
De supor que inspiração não se pegava.
Ora, cansei de ir contra a natureza das mãos.
Cansei dos falsos toques, dados no saber sem vida.
Se hoje escrevo, como quem toca de ouvido,
É porque me tocam as coisas que ouço.
Ouço as coisas que toco e, pronto, escrevo.
No mais, é só o de menos.



FLANZER, Sandra Niskier. "Tocar de ouvido". In:_____. Por um, segundo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.

18.5.17

Antonio Carlos Secchin: "A gaveta"



A gaveta

A gaveta está trancada,
a chave levou Maria.
Nela guardados os planos
de quem já fui algum dia?
Decerto aí também mora
a linha da pescaria
que mirou no meu futuro,
mas errou a pontaria.
Desconheço se ela abriga
alguma mercadoria
dispondo de mais valor
que um pardal na ventania.
Mas por que agora eu escuto
numa quase litania
as vozes que dela saem
e se engrossam em gritaria?
Chamo então um bom chaveiro
da Europa, Olinda ou Bahia,
para arrombar a gaveta,
pois lá do fundo eu traria
a chave de algum passado
que aprisionado me espia.
Chega um e chegam dez
chaveiros em romaria.
A gaveta a todos eles,
um por um, derrotaria.
São bem fracos contra a força
e a resistência bravia
que a tal fechadura impõe
frente a tal cavalaria.
Na madrugada, cansado
pela perdida porfia,
percebo voando no ar
uma dúbia melodia.
Provém daquela gaveta:
ela afinal me induzia
a entrar sem maior esforço,
já que a mim se entregaria,
e dentro de si guardava
peça de imensa valia;
eu agora nem de chave
nem de nada carecia.
Conseguiu me convencer
com voz bastante macia,
e, pronto para apossar-me
da mais pura pedraria,
abri-a com a mão amante
de quem pisa em joalheria.
O tesouro acumulado
era a gaveta vazia.
Dois insetos passeavam
sobre a superfície fria.



SECCHIN, Antonio Carlos. "A gaveta". In: Mallarmagens. Revista eletrônica de poesia e arte contemporânea. URL: http://www.mallarmargens.com/2017/05/a-c-secchin-ineditos.html?q=Secchin. Acessado em 17/05/2017.




16.5.17

Abel Silva: "O pássaro da poesia"



O pássaro da poesia
O pássaro da poesia
soma de tanta asa
tanta pena
tanta amplidão,
é animal de grande potência
e autonomia,
os poetas, não.

Gotas de sangue eles são
nas veias do Pássaro-Mãe
e têm de cuidar de si
e do ávido bico materno
que se alimenta
dos filhos que gera.

Voa a Poesia
as grandes asas sombreando os caminhos.
O poeta vai a pé
sob olhares e zumbidos
junto a invisíveis muradas.

Sente frio
sob o sol
sente febre
e solidão.
Por onde vai os dedos apontam o vagabundo,
ele prossegue, entretanto.
É seu destino.
E ele não o troca
por nada deste mundo.



SILVA, Abel. "O pássaro da poesia" In:_____. PoemAteu. São Paulo: 7 Letras, 2011.


14.5.17

Abel Silva na Ocupação Poética do Teatro Cândido Mendes



















Nesta segunda (15), às 20h, o teatro do Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema, receberá a 9ª edição do projeto Ocupação Poética, dedicada ao grande poeta e letrista da música popular brasileira, ABEL SILVA. Com leituras de parte de sua obra poética e interpretações de alguns de seus sucessos musicais, a noite contará com as participações especiais de ilustres amigos e parceiros do homenageado como o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero; o cantor e compositor Geraldo Azevedo; o poeta e jornalista Christovam de Chevalier; a poeta, atriz, cantora e dramaturga Elisa Lucinda; a atriz, escritora e jornalista Tessy Callado. A coordenação é do poeta e jornalista Paulo Sabino, que também participa da homenagem.

13.5.17

Francisco Bosco: "Da Amizade"



Da Amizade

Não é pelo saber nele encerrado,
mas sim pelo sabor da língua antiga

– qual num palimpsesto culinário,
na língua nova a língua traduzida:

os nomes próprios são especiarias,
Tibério, Caio Lélio, Cipião,

são como mariscos pescados nas ilhas,
aura e sal conservados no som –,

que a leitura do Da Amizade,
de Marco Túlio Cícero, o romano,

portanto é menos uma aprendizagem,
que um pequeno rito gastronômico:

é como se comêssemos um prato
envolto em naufrágios e segredos

– os cozinheiros estão todo mortos,
os livros, porém, guardam a receita.



BOSCO, Francisco. "Da Amizade". In:_____. Da Amizade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

10.5.17

Charles Baudelaire: "Spleen (III)": trad. de Guilherme de Almeida



Spleen (III)

Je suis comme le roi d'un pays pluvieux,
Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très vieux,
Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,
S'ennuie avec ses chiens comme avec d'autres bêtes.
Rien ne peut l'égayer, ni gibier, ni faucon,
Ni son peuple mourant en face du balcon.
Du bouffon favori la grotesque ballade
Ne distrait plus le front de ce cruel malade ;

Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,
Et les dames d'atour, pour qui tout prince est beau,
Ne savent plus trouver d'impudique toilette
Pour tirer un souris de ce jeune squelette.
Le savant qui lui fait de l'or n'a jamais pu
De son être extirper l'élément corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,
Il n'a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé.





Spleen (III)

Sou como o pobre rei de algum país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que as lisonjas dos preceptores desprezando
Vai com seus animais, com seus cães se enfadando.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,
Nem seu povo morrendo em frente do balcão.
Do jogral favorito a grotesca balada
Não mais lhe desenruga a fronte acabrunhada;

Todo flores-de-lis, é um mausoléu seu leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Já não sabem que traje impudico vestir
Para fazer esse esqueleto moço rir.
O sábio, que fabrica o seu ouro, em vão luta
Por lhe extirpar do ser a matéria corrupta,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Conseguiu aquecer essa carcaça insulsa
Onde, em lugar de sangue, a água do Lete pulsa.




BAUDELAIRE, Charles. "Spleen (III)". In: ALMEIDA, Guilherme (org. e trad.). Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.

7.5.17

Luis Cernuda: "El amor y el amante" / "O amor e o amante": trad. Antonio Cicero


El amor y el amante

¿Eres amor? Pasa el fuego,
Cruza con alas el mar,
Despierta a la vida en el sueño,
Da hermosura a lo real.

¿Eres tan sólo la sombra?
Cubre con tu resplandor
Tu mentira. Haz que la sombra
Venza al fuerte, al puro amor.



CERNUDA, Luis. "El amor y el amante". In:_____. "La realidad y el deseo". In:_____. Poesía completa.  Org. por Derek Harris e Luis Maristany. Madrid: Siruela,1993.




O amor e o amante

És mesmo amor? Passa o fogo
Cruza com asas o mar,
Desperta na vida o sonho,
Dá formosura ao real.

Ou és apenas a sombra?
Cobre com teu resplendor
Tua mentira: que a sombra
Vença o forte, o puro amor.



Tradução por Antonio Cicero

4.5.17

Armando Freitas Filho: "Outra receita"



Outra receita

Da linguagem, o que flutua
ao contrário do feijão à João
é o que se quer aqui, escrevível:
o conserto das palavras, não só
o resultado final da oficina
mas o ruído discreto e breve
o rumor de rosca, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo -
o eco, o feno, a palha, o leve -
até para efeito de contraste
para fazer do peso - pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
para manter a atenção de quem lê
como isca, como risco, a ameaça
do que está no ar, iminente.



FREITAS FILHO, Armando. "Outra receita". In:_____. Raro mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

2.5.17

Caetano Veloso entrevistado por Marjorie Perloff



No ano passado, Caetano Veloso compareceu à convenção da Modern Language Association, em Austin, no Texas, a convite do Presidente dessa instituição, Roland Greene, para ser entrevistado pela grande crítica literária norte-americana, Marjorie Perloff. Quem quiser assistir a essa extraordinária entrevista (em inglês), pode fazê-lo no seguinte site: http://arcade.stanford.edu/content/artist-interpreter-caetano-veloso-mla-2016-0.


1.5.17

Pedro Tamen: "Linneu"


Linneu

A minha profissão é dar-lhes nomes.
Tal como o outro, passados os seis dias,
foi tudo achando bem, e disse
que era bom, e o chamou,
assim, no bom ou mau,
eu dou nomes à vida, digo
esta é a rosa dos ventos, digo
esta é a flor das águas, digo
esta é a planta do teu pé.

Apenas digo nomes: tudo existe
muito senhor de si,
tudo existe insolente,
independente.

Não era necessário eu ter nascido.



TAMEN, Pedro. "Linneu". In:_____. Analogia e dedos. Lisboa: Oceanos, 2006.


29.4.17

Giacomo Leopardi: "L'Infinito" / "O Infinito": trad. de Nelson Ascher

Agradeço ao poeta Nelson Ascher por me ter enviado a seguinte belíssima tradução que ele fez do clássico poema de Leopardi "L'INFINITO":


O INFINITO

Volto sempre a esta encosta solitária
e gosto até da sebe que me encobre
em boa parte o extremo do horizonte.
Porém, sentado e olhando, eu infindáveis 
espaços muito além e sobre-humanos
silêncios e as quietudes mais profundas
formo ao pensar, a ponto de que o peito
por pouco não se alarma. E ouvindo folhas
farfalharem ao vento, esta voz logo
comparo com aqueles infinitos
silêncios, e me assoma a eternidade
e as eras que passaram e esta nossa,
viva e ruidosa. Então meu pensamento
se afoga nessa imensidade toda:

e é doce naufragar num mar assim.



L'INFINITO

Sempre caro  mi fu quest’ermo colle, 
e questa siepe, che da tanta parte 
dell’ultimo orizzonte il guardo esclude. 
Ma sedendo e mirando, interminati 
spazi di là da quella, e sovrumani 
silenzi, e profondissima quïete 
io nel pensier mi fingo, ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento 
odo stormir tra queste piante, io quello 
infinito silenzio a questa voce 
vo comparando: e mi sovvien l’eterno, 
e le morte stagioni, e la presente 
e viva, e il suon di lei. Così tra questa 
immensità s’annega il pensier mio: 
e il naufragar m’è dolce in questo mare.


LEOPARDI, Giacomo. "L'Infinito". In:_____. "Canti". In:_____. Opere di Giacomo Leopardi. Org. por Giovanni Getto. Milano: Ugo Mursia, 1975. 

27.4.17

Luis Turiba: "Geominerografia"


Geominerografia

pedras que rolam
minas que minam

sertões descampados
veredas rochosas
montanhas manhosas
rios infindos
correntes transbordantes
grutas e cachoeiras
águas cristalindas

atravessar minas
é surfar pelas páginas
de Guimarães Rosa



TURIBA, Luis. "Geominerografia". In:_____. "Ser minério é coisa séria". In:_____. Qtais. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.




25.4.17

João Pedro Fagerlande recita o poema "Guardar", de Antonio Cicero


Gostei muito da interpretação de João Pedro Fagerlande do meu poema "Guardar". Encontra-se aqui:





23.4.17

"Tudo é irrelevante"


Hoje às 19h, no Espaço Itaú de Cinema 6, no Rio de Janeiro, será exibido, como parte do festival "É tudo verdade", o documentário de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan "Tudo é irrelevante", sobre o grande pensador brasileiro Helio Jaguaribe.



Lêdo Ivo: "Soneto de ninar"



Soneto de ninar

Dorme, oceano.
Minha canção te embala
na treva lacerada
pelas constelações.

Dorme, doce terra impura.
Minha canção te cinge,
leve gesto de amor
na escuridão.

Dorme, vento
que suspende as árvores
no ar.

Durmam até as pedras
repousadas e felizes
em seu sono de pedra.



IVO, Lêdo. "Soneto de ninar". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

21.4.17

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Não torna ao ramo a folha que o deixou"



Não torna ao ramo a folha que o deixou, (28-9-1926)

Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
        Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
        Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
        Deuses em quem o empregue.



PESSOA, Fernando. "Não torna ao ramo a filha que o deixou". In:_____. Poemas de Ricardo Reis. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.

18.4.17

Jorge Luis Borges: "El suicida"



El suicida

No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.




O suicida

Não ficará na noite uma estrela.
Não ficará a noite.
Morrerei e comigo a soma
Do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
Os continentes e as caras.
Apagarei a acumulação do passado. 
Farei pó a história, pó o pó.
Estou olhando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.



BORGES, Jorge Luis. "El suicida". In:_____. "La rosa profunda". In:_____. Obras completas. 1975-1985. Vol.2. Buenos Aires: Emecé, 1989. 




16.4.17

Ferreira Gullar: "Dois poetas na praia"



Dois poetas na praia

É carnaval,
a terra treme:
um casal de poetas conversa
na praia do Leme!

Falam os dois de poesia
e dos banhistas
que nunca lerão Drummond nem Mallarmé.
– E lerão o meu poema?
pergunta ela.
– Alguém vai ler.
– Pois mesmo que não leia
não vou deixar de dizer
o que vejo nesta areia
que eles pisam sem ver.

E o poeta mais velho
sorri confortado:
a poesia está ali
renascida a seu lado.



GULLAR, Ferreira. "Dois poetas na praia". In:_____. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

12.4.17

Jacques Prévert: "Le cancre" / "Juquinha": trad. de Silviano Santiago


Le cancre

Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le cœur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.



Juquinha

Diz não com a cabeça
diz sim com o coração
diz sim ao que ama
diz não ao professor
está de pé
sendo arguído
e todas as perguntas lhe são feitas
de repente morre de rir
e apaga tudo
os números e as palavras
as datas e os nomes
as frases e as armadilhas
e apesar das ameaças do professor
debaixo da vaia dos meninos prodígios
no quadro- negro da desgraça
com giz de todas as cores
desenha o rosto da felicidade.




PRÉVERT, Jacques. "Le cancre" / "Juquinha". Poemas. Seleção e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

9.4.17

Bill Knott: "Death"


Morte

Perto de dormir, cruzo as mãos sobre o peito.
Colocarão minhas mãos assim.
Parecerá que estou a voar para dentro de mim mesmo.


Death

Going to sleep, I cross my hands on my chest.
They will place my hands like this.
It will look as though I am flying into myself.



KNOTT, Bill. "Death". In:_____. I am flying into myself: selected poems, 1960-2014. Org. por Thomas Lux. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2017.

7.4.17

Antônio Olinto: "Teoria do homem"



Teoria do homem

O começo do homem é o fim do homem
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o medo é o muro o muro é o vulto
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.



OLINTO, Antônio. "Teoria do homem". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2004.

5.4.17

Seamus Heaney: "Arion" / "Aríon": trad. de Rui Carvalho Homem


Aríon

Todos estávamos em grande afã lá no barco,
Alguns em cima esticando as velas,
Outros em baixo no puxa e empurra
Dos bancos de remador, com pesada carga,
A quilha firme no mar, singrando em silêncio,
O timoneiro jovial ao leme;
E eu, que achava estar tudo garantido,
Cantava para os marinheiros.
                                            E de súbito,
Vento tumultuoso, um turbilhão:
O timoneiro e os marinheiros morreram.
Só eu, cantando ainda, lançado
À praia pela longa vaga marinha, prossigo
O meu canto, um mistério para o meu ser de poeta,
E são e salvo debaixo de uma falésia
Estendo as minhas roupas molhadas ao sol.


                                     do russo de Alexandre Pushkin




Arion

We were all hard at it in the boat,
Some of us up tightening sail,
Some down at the heave and haul
Of the rowing benches, deeply cargoed,
Steady keeled, our passage silent,
The helmsman buoyant at the helm;
And I, who took it all for granted,
Sang to the sailors.
                                Then turbulent
Sudden wind, a maelstrom:
The helmsman and the sailors perished.
Only I, still singing, washed
Ashore by the long sea-swell, sing on,
A mystery to my poet self,
And safe and sound beneath a rock shelf
Have spread my wet clothes in the sun.


                                    from the Russian of Alexader Pushkin




HEANEY, Seamus. "Arion" / "Aríon". In:_____. Electric light. Trad. de Rui Carvalho Homem. Vila Nova de Famalicão: Quasi, s.d.

3.4.17

Nelson Ascher: "Havia um surfista em Recife"





Havia um surfista em Recife
que usava só pranchas de grife.
    Tubarões, todavia,
    devoraram-no um dia
pensando tratar-se de um bife.



ASCHER, Nelson. "Havia um surfista em Recife". In:_____. "Aqui (limericks, epigramas & epitáfio)". In:_____. Parte alguma: poesia (1997-2004). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.




1.4.17

Derek Walcott: "Love after love" / "Amor depois de amor": trad. de Rodrigo Garcia Lopes


Love after love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other's welcome,

and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.



WALCOTT, Derek. "Love after love". In:_____. Collected poems. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1986.


Amor depois de amor

Vai vir o tempo
em que você, orgulhoso,
vai saudar a si mesmo chegando
à sua própria porta, em seu próprio espelho,
e vão trocar sorrisos de boas-vindas,

você vai dizer, sente-se. Coma.
Vai amar o estranho que um dia você foi.
Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
pra ele mesmo, o estranho que o amou

por toda a sua vida, e a quem você ignorou
por outro alguém, que o conhece de cor.
Pegue da estante as cartas de amor,

as fotografias, as anotações desesperadas,
descasque seu reflexo do espelho.
Sente-se. Sirva-se da vida.



WALCOTT, Derek. "Amor depois de amor". Trad. Rodrigo Garcia Lopes. In blog Estúdio Realidade. URL: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2011/12/amor-depois-de-amor-derek-walcott.html. Acessado em 1 de março de 2017.

Eu, Waly Salomão e Derek Walcott


Eu, Waly Salomão e Derek Walcott, na casa deste, na ilha de
Saint Lucia, no Caribe, em 1994.















Em 1994, o poeta Waly Salomão e eu fomos -- graças ao apoio de
Ana Lucia Magalhães Pinto, que dirigia o departamento cultural do
Banco Nacional -- à Ilha de Saint Lucia, para convidar o poeta
Derek Walcott a vir ao Brasil, participar do ciclo internacional de
conferências intitulado "Banco Nacional de Ideias", que Waly e eu
organizamos até 1995. O poeta caribenho veio e pronunciou uma
bela palestra em São Paulo.


30.3.17

Sarah Rebecca Kersley: "Sotaque"




Sotaque

Como soa
a ilhada
entubada
arrastada
arranhada
resgatada
afogada
creditada
partilhada
escrita
em trânsito?
Soa assim.





KERSLEY, Sarah Rebecca. "Sotaque". In:_____. Tipografia oceânica. Salvador: Boto-cor-de-rosa livros, arte & café / paraLeLo 13S, 2017.

29.3.17

Carlos Pena Filho: "Primeiro poema no vazio"




Primeiro poema no vazio

Buscava tudo o que havia
de nunca mais encontrar
em sua face macia
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia
nos verdes  sulcos do mar,
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia,
nos verdes sulcos do mar.



PENA FILHO, Carlos. "A vertigem lúcida". In:_____. Livro Geral. Olinda: Prefeitura de Olinda, 1959.

27.3.17

Manuel Alegre: "Blackbird ou O quarto poema do caçador"




             Blackbird 
                  ou 
O quarto poema do caçador

Um pássaro negro voava
voava no meio do branco
não sei se sombra ou palavra
ou verso na página em branco.
Sei que era negro e voava
voava no meio do branco.



ALEGRE, Manuel. "Blackbird ou O quarto poema do caçador". In:_____. Doze naus. Lisboa: Dom Quixote, 2007.

25.3.17

George Gordon Byron: "Beppo: a Venetian story, XLIV" / "Beppo: uma história veneziana, XLIV": trad. Paulo Henriques Britto




XLIV

Adoro o italiano, esse latim
  Bastardo, doce e suave como um beijo,
Como se escrito em folhas de cetim,
  De sons tão musicais quanto um solfejo,
Sílabas líquidas do início ao fim,
  Tão diferentes desse gargarejo
Que lá no norte agride-nos o ouvido —
  Sibilado, anasalado e cuspido.


XLIV

I love the language, that soft bastard Latin,         
  Which melts like kisses from a female mouth,
And sounds as if it should be writ on satin,
  With syllables which breathe of the sweet South,
And gentle liquids gliding all so pat in,
  That not a single accent seems uncouth,         
Like our harsh northern whistling, grunting guttural,
  Which we’re obliged to hiss, and spit, and sputter all.




BYRON, George Gordon. "Beppo: a Venetian story" /"Beppo: uma história veneziana". In: Lord Byron. Beppo: uma história veneziana. Trad.: Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

22.3.17

Affonso Ávila: "Casa dos contos"



Casa dos contos

& em cada conto te cont
o & em cada enquanto me enca
nto & em cada arco te a
barco & em cada porta m
e perco & em cada lanço t
e alcanço & em cada escad
a me escapo & em cada pe
dra te prendo & em cada g
rade me escravo & em ca
da sótão te sonho & em cada
esconso me affonso & em
cada claúdio te canto & e
m cada fosso me enforco &



ÁVILA, Affonso. "Casa dos contos". In:_____. Discurso da difamação do poeta. São Paulo: Summus, 1978.

18.3.17

Heráclito: sobre seu silêncio



Dizem que ele [Heráclito], interrogado sobre por que razão estava em silêncio, respondeu: “para que possais tagarelar”.




HERACLITUS. In: LAERTIUS, Diogenes. Vitae philosophorum. Oxford: Clarendon Press, 1966.

12.3.17

William Soares dos Santos: Desdobrando um poema de Antonio Cicero"

Agradeço a William Soares dos Santos por me ter enviado um interessante "desdobramento" da minha letra "Inverno". Ei-lo:



Desdobrando um poema de Antonio Cícero,
por William Soares dos Santos (Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2016)

No dia em que fui mais feliz,
eu me entreguei
na crístalo-retina
de tua alma,
de lá para cá não sei
onde encontrar o
meu corpo
sem o teu
tempo-coração.

Caminho ao longo do
canal
de minhas
entranhas plenas,
escrevo longas
cartas para
ninguém que
te reconheças
como eu,

em desvão.

O inverno
no Leblon é glacial,
como o tremor
de apenas
supor o teu 
abandono.

Há algo que 
jamais se esclareceu:
quando a noite
com seu fulgor
fez-me esquecer
onde exatamente
guardei o 
meu destino
destituído 
de senãos?

Onde guardei o leão
que sempre cavalguei
ao encalço de teu
último fado,
quase um
semi-deus?

Eu mesmo,
esqueci
que o destino,
quase sempre,
me quis só,
olhando o mar,
mente ao vertigo
anunciador
do sol
que nos consumiria
sem saudades,
sem amores,
barcos embriagados
em nossas circunstâncias,

mar, que de tanto sal,
conservou
as 
circunscrições
da existência em teu
perímetro,
altímetro.

Onde foi?




William Soares dos Santos

10.3.17

Olavo Bilac: "VI da 'Via-Látea'"



                            VI

Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Mas amastes, sem dúvida ... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.



BILAC, Olavo. VI da "Via-Látea". In:_____. Poesias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1916.

8.3.17

Inês Pedrosa: "Porque não há nada em vez de tudo?"


Publico a seguir o belo texto da conferência que a grande romancista portuguesa Inês Pedrosa pronunciou no festival literário Correntes d'Escritas em 25 de fevereiro do corrente ano. 




Tema da mesa: “Por que não há nada em vez de tudo?”
  
          O que é tudo? O que é nada? O que é em vez de? Vivemos, como assinalou Milan Kundera, no planeta da inexperiência: as nossas vidas são um rascunho contínuo, que um dia acaba. Poucos conseguem verdadeiramente fazer da certeza da morte a ciência da vida. Viver cada dia como se fosse o ultimo seria demasiado triste. Mas viver cada dia como o dia único que de facto é far-nos-ia sentir muito mais felizes do que, em geral, sabemos ser. A espécie humana é biologicamente desejante. Lembro-me daquela criança que atroava o café com a sua birra. Perguntavam-lhe o que queria: um sumo, um refrigerante, um leite com chocolate, uma água. A tudo a criança dizia que não, cada vez mais desesperada. Acabou por se explicar, gritando: «Eu quero uma coisa que não haja!».
          Todos somos aquele menino filósofo. Todos queremos uma coisa que não haja em vez das múltiplas coisas que existem. E se tivéssemos tido a sorte genética da Nicole Kidman ou do Marcelo Mastroianni? E se tivéssemos o talento e a riqueza de Tolstoi? E se eu tivesse nascido homem num país rico? O “e se” é, por si só, um tesouro, se conseguirmos apontá-lo para o futuro particular e não para o passado genérico: e se eu escrevesse um romance que captasse o não-dito do meu tempo? E se eu valorizasse o amor que tenho? E se eu fizesse alguma coisa pelos que sofrem ao meu lado? E se eu me dedicasse a corrigir uma injustiça concreta? E se eu deitasse para o lixo todos os sentimentos comparativos e me concentrasse em ser apenas, num superlativo solitário, o melhor que posso ser?    
          Os estrangeiros em turismo dizem que nos falta, demasiadas vezes, a capacidade de dar valor ao que há. Queixamo-nos quando chove, porque está frio, e quando faz sol, porque o calor é excessivo. Nunca estamos bem, e parece que esse apego ao mal-estar faz parte de nós. No entanto, raras vezes nos ocorre aproveitar essa incomodidade permanente para ir à procura de qualquer coisa que ainda não haja. Imobilizamo-nos a olhar para o que há, nas mãos de outros – e tornamo-nos estátuas falantes do ressentimento. Em alguns casos, esfolamo-nos niponicamente a trabalhar para conseguir aumentar aquilo que há – é a isso que, em geral, se chama ambição. E o que fazemos ao sonho das coisas que não há? Espero que nunca cheguemos à anorexia onírica das japonesas solteiras que passam o ano a trabalhar para gozarem a semana de férias a que têm direito nos bailes de Janeiro em Viena de Áustria, nos braços ilusórios de fantasmáticos príncipes loiros. Há agências de viagens em Tóquio especializadas nesta espécie de sonho cinderélico, que faz as vezes de desejo. Escreveu Slavoj Zizek (em Bem-vindo ao Universo do Real!): «A traição do desejo tem um nome: felicidade.»
          Neste mundo em que o hedonismo se tornou lei, as pessoas sentem-se culpadas quando não conseguem fruir o prazer – e assim morre o desejo, motor da singularidade humana. Amália Rodrigues, que sabia de desejo pelo menos tanto como Schopenhauer ou Barthes, sintetizou em meia dúzia de versos este problema político central – porque o desejo é o gatilho erótico de todas as revoluções, pessoais ou intercontinentais. Escreveu Amália (e cito): «Já não temos fome, mãe / mas já não temos também / o desejo de a não ter / Já não sabemos sonhar / Já andamos a enganar / o desejo de morrer.»
          Os condenados dos campos da morte do nazismo reuniam-se nas infectas e geladas latrinas para sussurrarem uns aos outros textos literários. Não tinham nada a não ser esse tudo das palavras que os arredavam – mais uma hora, mais um dia – do desespero da desumanização radical. Não só não é bárbaro escrever poesia depois do Holocausto, ao contrário do que afirmou Theodor Adorno, como é cada vez mais necessário escrever e ler, ter o atrevimento de pensar tudo o tempo todo, para que não renasçam das cinzas novas formulações dessa barbárie. 
          O genocídio organizado como indústria que o nazismo promoveu é ontologicamente incomparável. Significa isto que não tem equivalências, porque fazer com que uma coisa seja equivalente a outra é integrá-la, aceitá-la como possível dentro de um determinado sistema, normalizá-la. Dizer, como disse corajosamente Hannah Arendt, que os totalitarismos se afirmam através da banalização do mal não é a mesma coisa do que instituir o mal como facto banal. Temos de aprender a distinguir, pensar cada situação no seu específico contexto para não nos deixarmos cair nas areias movediças da indignação indiferenciada. É dessas areias que nascem os monstros que anestesiam e paralisam os indignados genéricos, arrastando-os para a resignação diante do mal. A intolerância que hoje sentimos rugir resulta de uma submissão à tolerância. Quando consideramos a mutilação genital feminina ou a amputação da mão de um ladrão como actos culturalmente justificados, isto é, quando nos abstemos de agir contra a existência desses actos, resguardando-nos sob o simpático guarda-chuva da tolerância, estamos a permitir a sua continuidade, ou seja, a favorecer o princípio da intolerância. O ensaio mais fulgurante que conheço sobre estas questões comparativas, fundamentais para a compreensão do estado do mundo, é o ensaio de Antonio Cicero intitulado Da Atualidade do Conceito de Civilização, onde o filósofo afirma, e cito: «a civilização está em maior grau presente onde os direitos civis sejam formalmente reconhecidos e materialmente respeitados, e na medida em que o sejam.» A razão humana, a luz do cogito de Descartes, que se identifica com a própria capacidade de duvidar é, diz-nos Antonio Cicero, o grande fundamento civilizacional – do qual continuamos tão distantes hoje, com a nossa intolerável tolerância, como há cinco séculos, com o seu reverso, a intolerável intolerância dos nossos antepassados. Ousemos olhar para lá do nosso cercado e pensar todas as coisas como se nunca tivessem sido pensadas – só a esta acção despojada e genuinamente empenhada se pode chamar pensamento. Ousemos sair do regime tenebrosamente confortável do «tudo é relativo e nada podemos fazer» para esta outra pergunta: entre o tudo e o nada, que são a vida e a morte, o que posso eu fazer?  «Chegamos ao ponto de nos alegrarmos com uma liberdade que nasce do estéril, que vem do destruído», escreveu Ignacio de Loyola Brandão, na terrível distopia de Não Verás País Nenhum, um fantástico romance do qual a realidade se aproxima sinuosa e festivamente.     

          A criança que grita para que a deixem querer uma coisa que não haja é a musa de todos os livros, a musa de todos os desejos que circulam em nós, pedindo apenas a graça de continuar em movimento, para lá da infantil desilusão das felicidades alcançadas. Essa coisa que nos fascina porque não há pode ser um átomo ou o transporte molecular, um romance, uma música, uma pintura – mas frequentemente é apenas e só a coisa que há ou julgamos haver na mão, na cabeça, na casa dos outros. Quando confinamos o absoluto do sonho ao relativo da comparação, ele deixa de ser viagem interestelar e torna-se casebre prisional. Imagino um mundo de sonhos incomparáveis, onde as estrelas fossem elementos do céu e não adereços da crítica literária jornalística, a ambição uma corrida de cada um com os seus íntimos e inalienáveis sonhos, e o sucesso a capacidade de descobrir o novo dentro do velho conhecido, isto é, a mais perfeita das artes e aquela em que nos temos mostrado mais imperfeitos – o amor.   

Inês Pedrosa

5.3.17

Friedrich Hölderlin: "An unsre großen Dichter" / "Aos nossos grandes poetas": trad. de Paulo Quintela




Aos nossos grandes poetas

As margens do Ganges ouviram do deus da alegria
   O triunfo, quando do Indo conquistando tudo
      Vinha o jovem Baco, com vinho
         Sagrado acordando os povos do sono.

Oh acordai-os, Poetas! Acordai-os do sono também,
   Os que inda dormem, dai-nos as leis, dai-nos
      A vida, triunfai, Heróis! Só vós
         Tendes direito de conquista, como Baco.





An unsre großen Dichter

Des Ganges Ufer hörten des Freudengotts
   Triumph, als allerobernd vom Indus her
      Der junge Bacchus kam, mit heiligem
         Weine vom Schlafe die Völker weckend.

O weckt, ihr Dichter! weckt sie vom Schlummer auch,
   Die jetzt noch schlafen, gebt die Gesetze, gebt
      Uns Leben, siegt, Heroën! ihr nur
          Habt der Eroberung Recht, wie Bacchus.



HÖLDERLIN, Friedrich. "An unsre großen Dichter" / "Aos nossos grandes poetas". In:_____. Hölderlin: poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.  

2.3.17

Saint-John Perse: "Éloges - II" / "Elogios - II": trad. de Bruno Palma




Éloges – II

J’ai aimé un cheval – qui était-ce ? – il m’a bien regardé de face, sous mes mèches.
Les trous vivants de ses narines étaient deux choses belles à voir – avec ce trou vivant qui gonfle au-dessus de chaque œil.
Quand il avait couru, il suait : c’est briller ! – et j’ai pressé des lunes à ses flancs sous mes genoux d’enfant…
J’ai aimé un cheval – qui était-ce ? – et parfois (car une bête sait mieux quelles forces nous vantent)
il levait à ses dieux une tête d’airain : soufflante, sillonnée d’un pétiole de veines.


Elogios – II

Amei um cavalo – quem era? – olhou-me bem cara a cara, por entre suas madeixas.
Os buracos vivos das narinas eram duas coisas belas de ver – com esse buraco vivo que se dilata por cima de cada olho.
Quando corria, suava: isso é brilhar ! – e espremi luas em seus flancos sob meus
joelhos de criança ...
Amei um cavalo – quem era ? – e às vêzes (pois um animal sabe melhor que fôrças nos exaltam)
ele erguia a seus deuses uma cabeça de bronze: resfolegante, sulcada por um pecíolo de veias.



PERSE, Saint-John. "Éloges - II" / "Elogios - II". In: _____. Poemas. Trad. de Bruno Palma. Rio de Janeiro: Grifo, 1971. 

28.2.17

Adriano Nunes: "Que pode um poeta?"


Agradeço a Adriano Nunes por ter dedicado a mim o seguinte belo poema:



Que pode um poeta?

                       para Antonio Cicero

Que pode um
Poeta?
Abrir
As portas,
As frestas,
Os trincos,
As celas,
Gavetas,
Armários,
Os cofres,
As caixas,
As malas,
Os mares,
Prisões,
Algemas,
Os símiles
Sinônimos,
Análogos
Sentidos,
E mais
Que isso,
De fato,
As tantas
Janelas
Do instante
Sináptico,
Pra então
Criar
Mil cosmos
Elásticos,
Dar voz
Ao vácuo
Do amor,
Em nome
Do sonho
Depor,
Dizer
A que
Vem, veio,
É seu
Mor meio,
Pra expor
As múltiplas
Feridas
De si,
Tingindo-as
De mito,
Do misto
De verve e
Devir,
Mentindo, e
Curá-las,
Ainda
Que nada
Importe.
Dar um
Calote
Na morte,
Porque,
Sim, tudo o
Mais pode.




Adriano Nunes

27.2.17

Federico García Lorca: "Nido"/"Ninho": trad. de Wiliam Agel de Melo




Nido

Qué es lo que guardo en estos
momentos de tristeza?
¡Ay, quién tala mis bosques
dorados y floridos!
¿Qué leo en el espejo
de plata conmovida
que la aurora me ofrece
sobre el agua del río?
¿Qué gran olmo de idea
se ha tronchado en mi bosque?
¿Qué lluvia de silencio
me deja estremecido?
Si a mi amor dejé muerto
en la rivera triste,
¿qué zarzales me ocultan
algo recién nacido?




Ninho

O que é que guardo nestes
momentos de tristeza?
Ai!, quem tala meus bosques
dourados e floridos!
Que leio no espelho
de prata comovida
que a aurora me oferece
sobre a água do rio?
Que grande olmo de ideia
se cortou em meu bosque?
Que chuva de silêncio
me deixa estremecido?
Se meu amor deixei morto
numa ribeira triste,
que sarçais me ocultam
algo recém-nascido?



LORCA, Federico García. "Nido"/"Ninho". In:_____.  "Livro de poemas". Trad. de William Agel de Melo. In:_____. Obra poética completa. Brasília: Editora U. de Brasília. São Paulo: Martins Fontes, 1989, c1987.

24.2.17

Paulo Leminski: "Razão de ser"




Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?



LEMINSKI, Paulo. "Razão de ser". In:_____. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

22.2.17

Armando Silva Carvalho: "Varanda de Pilatos"



Varanda de Pilatos

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado.




CARVALHO, Armando Silva. "Varanda de Pilatos". In:_____. Sol a sol. Porto: Assírio & Alvim, 2005.

20.2.17

Secos e Molhados: "Não: não digas nada". João Ricardo/Fernando Pessoa


Agradeço a Nadine Granad por me ter lembrado da versão musicada por João Ricardo do poema de Fernando Pessoa "Não: não digas nada", pelos Secos e Molhados. Encontrei-a no You Tube. Ei-la:





João Ricardo/Fernando Pessoa. "Não: não digas nada". Faixa 3 do segundo álbum da banda brasileira Secos e Molhados (1974).. 

Fernando Pessoa: poema 127 do "Cancioneiro"





127

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.



PESSOA, Fernando. "127". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

17.2.17

Carlos Nejar: "Soterrada, desvivente Amatrice"


Amatrice é uma cidade e comuna na província de Rieti, ao norte do Lazio (Itália central). Fica no centro da área agrícola do Gran Sasso e do Parque Nacional Monti della Laga. A cidade foi devastada por um forte terremoto em 24 de agosto de 2016.



Soterrada, desvivente Amatrice

à Maria Beltrão

Amatrice, o terremoto
na Itália, Amatrice:
a cidade não existe, é agosto,
os gritos, ritos, o relógio
parou, mortos, mortos,
não há  história
nas ruínas, nem
é abrigo o  terror.
E o fundo se abriu
e as casas entre ossos
de corpos, ossos
de pedras e velhas
velhas sonantes
sombras.

Amatrice e tremeu
a terra, tremeu
desabando a madrugada.
E o que resta dos escombros,
o que resta na inscrição
dos sonhos. O que resta,
com desolado pó, o negro
mel, a morte reina
e morre.




NEJAR, Carlos. "Soterrada, desvivente Amatrice". In: SARAPEGBE. Rivista di cultura e società del Brasile e altri mosaici. No URL http://www.sarapegbe.net/articolo.php?quale=121&tabella=nuovi_percorsi.

15.2.17

Pedro Tamen: "Discurso do papagaio de papel"




Discurso do papagaio de papel

                    para José de Guimarães

Do alto vos falo, onde
acrescento azul de muitas cores
ao outro azul que os olhos vossos vêem
quando outra coisa não há no chão que ver.
Do alto me assobio,
vertendo em vós silêncio alçado
por cima dos ventos nos buracos
que a vossa vida minam.
Do alto assumo ser
preso ao chão que me solta
e estar como um farol assinalando
a possível e vera liberdade.



TAMEN, Pedro. "Discurso do papagaio de papel". In:_____. "Depois de ver". In:_____. Retábulo das Matérias. Poesia 1956-2001. Lisboa: Gótica, 2001.

13.2.17

Ivan Junqueira: "Morrer"




Morrer

Pois morrer é apenas isto:
Cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.



JUNQUEIRA, Ivan. "Morrer". In: FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.

11.2.17

Antonio Cicero: "Tzvetan Todorov libertou a literatura dos asfixiantes jogos formais"

O seguinte artigo meu foi publicado hoje em O Globo:



Tzvetan Todorov libertou a literatura dos asfixiantes jogos formais



Conheci pessoalmente Tzvetan Todorov em 1995, quando, convidado por mim e pelo poeta Waly Salomão, ele participou de um ciclo de conferências que organizamos em São Paulo. Desde então, reencontrei-o várias vezes em Paris, e trouxe-o ao Rio em 2011, para participar do ciclo de conferências “Forma e sentido contemporâneo: Poesia”, que organizei no centro cultural Oi Futuro Flamengo.

Era uma delícia conversar com Todorov, pois ele foi um dos intelectuais mais abertos a novas ideias e menos dogmáticos que conheci. Penso que isso talvez se devesse ao fato de que ele tinha intimamente conhecido o totalitarismo e sido vítima do dogmatismo. Foi certamente por isso que ele combateu, cada vez mais, aqueles que considerava os “inimigos íntimos” da democracia, como o populismo, o ultraliberalismo e o messianismo.

Mas é interessante como esse seu horror ao totalitarismo e ao dogmatismo já fica bem claro quando examinamos a evolução, ao longo de sua vida, de sua relação com a literatura.

Todorov nasceu em Sófia, na Bulgária, em 1939. Pelo menos desde 1946, isto é, quando ele tinha sete anos, a Bulgária passou a fazer parte dos países da Cortina de Ferro. 

O controle político e ideológico do Partido Comunista sobre toda a sociedade ficou então sendo total. Todorov conta que, quando entrou para a Universidade de Sófia para estudar letras, em 1956, apenas metade do que se ensinava nos cursos de literatura era erudição; a outra metade não passava de propaganda ideológica marxista-leninista.

Ao final do quinto ano de universidade, era necessário redigir uma monografia de fim de curso. Para fazê-lo sem se curvar à ideologia dominante, Todorov resolveu “abordar a própria materialidade do texto, suas formas linguísticas”, como ele mesmo veio a explicar muito mais tarde, em seu extraordinário livro “A literatura em perigo”.

Em 1963, tendo terminado seu Mestrado em Filologia pela Universidade de Sófia, ele emigrou para a França, onde estudou com Roland Barthes. Em 1965, Todorov organizou o livro “Teoria da literatura”, compilação de obras que revelou à França e, de maneira geral, ao Ocidente, a existência de uma notável escola de análise literária russa, cujos expoentes ficaram célebres como os “formalistas russos”. A partir de então, publicando obras como “Literatura e significação”, ele ficou conhecido como semiólogo e estruturalista.

Entretanto, vivendo na França, país que respeitava as liberdades individuais, de modo que o conteúdo das obras, isto é, o pensamento e os valores que elas continham não se encontravam mais “aprisionados numa coleira ideológica preestabelecida”, Todorov verificou que não tinha mais razão para se dedicar exclusivamente ao estudo da matéria verbal dos textos.

Ele pôde então considerar a totalidade forma/conteúdo de cada obra literária e criticar a tendência – produzida, em parte, exatamente pelas modas estruturalistas a que ele próprio fora associado – a reduzir os estudos literários aos métodos linguísticos e estilísticos, deixando de lado a compreensão geral dos textos e de suas relações com o mundo.

Para Todorov, todos os métodos são bons, desde que não se tornem o fim, mas apenas o meio de captar a verdade da obra. O sentido da literatura é ampliar nosso universo, apresentando-nos novas maneiras de apreender o mundo. 

Assim, diz ele, em “A literatura em perigo”, que devemos “libertar a literatura do espartilho asfixiante em que está presa, feito de jogos formais, queixas niilistas e ‘umbiguismo’ solipsista. Isso poderia, por sua vez, levar a crítica a percorrer horizontes mais amplos,  retirando-a do gueto formalista que interessa apenas a outras críticas, proporcionando a ela a abertura para o grande debate de ideias do qual participa todo conhecimento do homem”. 

9.2.17

Antonio Machado: "Proverbios y cantares: I"



I

Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
subitamente y quebrarse.




1
Nunca persegui a glória
nem preservar na memória
dos homens minha canção:
eu amo os mundos sutis,
sem gravidade e gentis
como bolhas de sabão.
É bom vê-los se pintando
de sol e pasto, voando
ao céu azul, tremulando
e de repente estourando.



MACHADO, Antonio. "Proverbios y cantares I". In:_____. Poesías completas. Madrid: Espasa-Calpe, 1983. 

7.2.17

Gastão Cruz: "Ouro velho"




Ouro velho


Vou deitar-me na praia quando às três
da tarde está deserta

e o sol lembra o ouro
de outrora mas mais velho



CRUZ, Gastão. "Ouro velho". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.

3.2.17

Agostinho da Silva: de "Pensamento à solta"




Procura, diante dos acontecimentos, ter as tuas reacções, não as dos outros.



SILVA, Agostinho da. "Pensamento à solta". In:_____. Textos e ensaios filosóficos II. Lisboa: Âncora Editora, 1999.

2.2.17

Comemoração dos 50 anos do Tropicalismo









Hoje, quinta-feira, dia 2, às 19h30, estarei no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, dizendo poemas para comemorar os 50 anos do Tropicalismo. A cantora e compositora Georgeana Bonow também se apresentará, na mesma ocasião. 


Endereço do Gabinete de Leitura:Rua Redentor, 157, Ipanema, Rio de Janeiro 

Telefone: 
(21) 2523-1553), 

1.2.17

Anacreonte: Fr. 357 / "A esfera do amor (fr.357): trad. Frederico Lourenço




A esfera do Amor (fr. 357 PMG)

De novo com a sua esfera purpúrea
o Amor de dourados cabelos me atinge,
e com a rapariga de coloridas sadálias
me convida a brincar.
Mas ela (pois vem lá da bem fundada
Lesbos) os meus cabelos
já brancos censura com desdém,
e olha embasbacada para -- outra rapariga.



ANACREONTE. "A esfera do Amor". In: LOURENÇO, Frederico (org., trad. e notas). Poesia grega, de Álcman a Teócrito. Lisboa: Cotovia, 2006.



Fr.357


sfai¿rhi dhuÅte/ me porfurh=i
ba/llwn xrusoko/mhj ãErwj
nh/ni poikilosamba/lwi
sumpai¿zein prokaleiÍtai:
h( d', e)stiìn ga\r a)p' eu)kti¿tou
Le/sbou, th\n me\n e)mh\n ko/mhn,
leukh\ ga/r, katame/mfetai,
pro\j d' aÃllhn tina\ xa/skei.


ANACREON. "Fr. 357". In: PAGE, Denys (org.). Poetae melici Graeci. Oxford: Oxford U. Press, 1955.





30.1.17

Adriano Espínola: "'Lamas' -- bar e restaurante"




"Lamas" -- bar  e restaurante

                                           A Horácio Dídimo


À noite
todos os lépidos
são larápios,

todos os otários
são
notórios,

todas as lânguidas
são
lésbicas

todas as cópulas
são
cédulas,

todos os lúcidos
são
trágicos

todos os bêbados
são
sábios.



ESPÍNOLA, Adriano. "'Lamas' -- bar e restaurante". In:_____. O lote clandestino. Rio de Janeiro: Topbooks, 2002.


28.1.17

Bertold Brecht: "Entdeckung an einer jungen Frau" / "Descoberta numa jovem mulher": trad. de André Vallias

Agradeço a André Vallias por me ter enviado sua bela tradução do seguinte belo soneto de Brecht:


Entdeckung an einer jungen Frau


Des Morgens nüchterner Abschied, eine Frau
Kühl zwischen Tür und Angel, kühl besehn
Da sah ich: eine Strähn in ihrem Haar war grau
Ich konnt mich nicht entschließen mehr zu gehn

Stumm nahm ich ihre Brust, und als sie fragte
Warum ich, Nachtgast, nach Verlauf der Nacht
Nicht gehen wolle, denn so war’s gedacht
Sah ich sie unumwunden an und sagte

Ist’s nur noch eine Nacht, will ich noch bleiben
Doch nütze deine Zeit, das ist das Schlimme
Daß du so zwischen Tür und Angel stehst

Und laß uns die Gespräche rascher treiben
Denn wir vergaßen ganz, daß du vergehst
Und es verschlug Begierde mir die Stimme



BRECHT, Bertold. "Entdeckung an einer jungen Frau". In:_____. Werke. Groβe kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe. Hg. von W. Hecht, J. Knopf, W. Mittenzwei, K-D Müller. Berlin, Weimar, Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1988, Bd.13.



Descoberta numa jovem mulher


Uma mulher, no sóbrio adeus de uma manhã,
Com o pé na soleira, fria, examinada:
Descubro então a mecha de cabelo bran-
Co, e já não sei se vou bater em retirada

Calado, pus as minhas mãos sobre os seu seios
Quando ela me indagou por que eu estava ainda
Ali – um hóspede noturno, a noite finda —
Olhei pra ela, e aí lhe disse sem rodeios

Foi uma noite apenas, e eu quero ficar
Mas usufrua do seu tempo, é bem pior
Você permanecer com o pé na soleira

Porém, vamos deixar a conversa pra lá
Nos esquecemos que você vai virar pó —
E me embargaram a voz as chamas da fogueira



Trad. de André Vallias

25.1.17

Antonio Cicero: "Solo da paixão"





SOLO DA PAIXÃO

  O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar:
Que ela seqüestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
Depois devolva tudo: terra céu e mar.




CICERO, Antonio. "Solo da paixão". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

23.1.17

Comemoração do 50º aniversário do Tropicalismo, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo




Na próxima quinta-feira, dia 26, às 19h30, estarei no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, dizendo poemas para comemorar os 50 anos do Tropicalismo. A cantora e compositora Georgeana Bonow também se apresentará, na mesma ocasião. 

Endereço do Gabinete de Leitura:Rua Redentor, 157, Ipanema, Rio de Janeiro 

Telefone: 
(21) 2523-1553), 

22.1.17

Ivan Junqueira: "E caem sobre ti"




E caem sobre ti

E caem sobre ti as folhas mortas
nesta pálida tarde em que navegam
vozes sem dono, brisas que carregam
o eco fugaz de antigas ruas tortas,
onde duendes e espíritos se apegam
ao que resta de luz por sob as portas
de pardieiros em cujas ermas hortas
crescem apenas cardos que nos cegam.
Tudo sucumbe ao teu domínio. Cortas,
de um golpe, as raras vênulas que regam
esses despojos com que não te importas
e que ao desterro a sua sorte entregam.
Confessas que a ninguém jamais confortas,
pois caem sobre ti as folhas mortas.




JUNQUEIRA, Ivan. "E caem sobre ti". In:_____. O outro lado. 1998-2006. Rio de Janeiro: Record, 2007.

20.1.17

Ítalo Moriconi: "Sem retorno"




Sem retorno

A sombra da terra de origem
esvaneceu-se, é como fiapos de nuvem
entre montanhas amenas, oliveiras,
percursos de trem
e um oceano inteiro, um salto
interplanetário, entre estrelas
apenas entrevistas.
O sortilégio do Amazonas, a foz,
as fontes inexauríveis do fluxo vital,
os cipós entrelaçados desde um tempo
de mais esfumada lembrança: enredos transgressivos
possivelmente ancestrais, é como um de-ene-ah!
Tudo se tornou longínquo, lendário,
material para um romance,
para um devaneio solitário.




MORICONI, Ítalo. "Sem retorno". In: _____. "Viagem à Itália". In: Candido. Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, nº65, dezembro de 2016.

18.1.17

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Pescador"




          Pescador

               1

Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
sem introversão



               2

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Pescador". In: _____. "Livro sexto". In: _____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

15.1.17

Haroldo de Campos: "zenbúdica"



zenbúdica

            para aguilar via oswald


               buda
            está
            no   u
            de humor
            e no a
            de    amor




CAMPOS, Haroldo de. "zenbúdica". In:_____. "zen". In:_____. crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 2004.  

13.1.17

Bertold Brecht: Zum Freitod des Flüchtlings W.B. / Ao suicídio do fugitivo W.B.: trad. por André Vallias


Agradeço a André Vallias por me ter enviado sua excelente tradução do belo -- e estranhamente atual -- poema que Brecht fez sobre o suicídio de Walter Benjamin, perseguido pelos nazistas.




Zum Freitod des Flüchtlings W.B.

Ich höre, daß du die Hand gegen dich erhoben hast 
Dem Schlächter zuvorkommend. 
Acht Jahre verbannt, den Aufstieg des Feindes beobachtend 
Zuletzt an eine unüberschreitbare Grenze getrieben 
Hast du, heisst es, eine überschreitbare überschritten. 

Reiche stürzen. Die Bandenführer 
Schreiten daher wie Staatsmänner. Die Völker
Sieht man nicht mehr unter den Rüstungen.

So liegt die Zukunft in Finsternis, und die guten Kräfte
Sind schwach. All das sahst du
Als du den quälbaren Leib zertörtest.



BRECHT, Bertold. "Zum Freitod des Flücherlin/Weimanr/Frankfort: Suhrkamp, 1993.




Ao suicídio do fugitivo W.B.

Ouço que ergueste a mão contra ti
Ao carniceiro te antecipando.
Oito anos desterrado, observando a ascensão do inimigo
Por fim, coagido a uma fronteira intransponível
Uma transponível, diz-se, ultrapassaste.

Reinos desabam. Os chefes de quadrilha
Avançam como homens de Estado. Não
Se vê mais os povos sob tanto armamento.

Assim o futuro jaz na escuridão, e as forças do bem
Estão fracas. Tudo isso enxergaste
Quando o torturável corpo destruíste.


Trad. por André Valias