7.8.16

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Manuel Bandeira"





Manuel Bandeira

Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar


Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava


Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"


Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava


Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Manuel Bandeira". In:_____. "Brasil ou do outro lado do mar". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Caminho, 2011.

2 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


amo esse belo poema de Sophia!




Abraçaço,
Adriano Nunes

Ricardo disse...

Leio um grandioso poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma evocação de Manuel Bandeira. Uma evocação, uma homenagem, uma recordação das três mulheres do sabonete Araxá. Um agradecimento.
E eu agradeço ao poeta Antonio Cicero por se dar ao trabalho de manter um blogue e permitir que eu conheça essa maravilha.
E percebo que o poema de Manuel Bandeira começou sua vida quando o poeta pôs os versos no papel. E foi crescendo, crescendo, tornou-se pra mim imenso após a leitura dos versos belíssimos da Sophia, e creio que minha leitura os tornou um tantinho maiores também.
E meu dou conta novamente de que um grande poema é uma coisa infinita.