25.9.16

Horácio: Ode 2.14: Trad. de José Agostinho de Macedo




Ode 2.14

Fogem os anos, Póstumo, apressados;
Religiosa Piedade em vão procura
Deter os passos da Velhice e Morte;
Não lhe suspende os golpes.
Inda que intentes aplacar com sangue
De tríplice Hecatombe os dias todos,
O inflexível Plutão, surdo a teus votos,
As Parcas não suspende.
O Triplicado Gerião, e a Tício
Nas tristes ondas prende; à Terra quantos
Devem sustento seu, ou Reis, ou Povo,
Têm de passar a Estige.
Em vão se evita a Guerra, em vão fugimos
Do Adriático Mar as ondas roucas;
Debalde temos medo ao Sul no Outono,
Que os corpos nos ataca.
Do sinuoso Cocito e negro as ondas
Perguiçosas e a vil Prole de Dânao
E do Eólio Sisifo a pena eterna
Verá todo vivente.
Deve deixar-se a Terra, a Casa, a Esposa,
E das que amaste em vida árvores tantas
Nenhuma seguirá rápido Dono,
Mais que o odiado Cipreste.
Então consumirá pródigo Herdeiro
Prenhes Tonéis do Cécubo espumante,
Que ora, tão resguardado e cauteloso,
A cem chaves ferrolha[s].
Com profusão no rico pavimento
O Vinho entornará, mais generoso
Que o Falemo Licor que espuma e corre
Nas Pontifícias Mesas.



Ode  2.14

Eheu fugaces, Postume, Postume,
labuntur anni nec pietas moram    
rugis et instanti senectae        
adferet indomitaeque morti,
non si trecenis quotquot eunt dies,
amice, places inlacrimabilem    
Plutona tauris, qui ter amplum        
Geryonen Tityonque tristi
conpescit unda, scilicet omnibus,
quicumque terrae munere vescimur,    
enaviganda, sive reges        
sive inopes erimus coloni.
frustra cruento Marte carebimus
fractisque rauci fluctibus Hadriae,    
frustra per autumnos nocentem        
corporibus metuemus Austrum:
visendus ater flumine languido
Cocytos errans et Danai genus    
infame damnatusque longi        
Sisyphus Aeolides laboris,  
 linquenda tellus et domus et placens
uxor, neque harum quas colis arborum    
te praeter invisas cupressos        
ulla brevem dominum sequetur.
 absumet heres Caecuba dignior
servata centum clavibus et mero    
tinguet pavimentum superbo,        
pontificum potiore cenis.




HORÁCIO. "Ode 2.14". Trad. de José Agostinho de Macedo. In:_____. ACHCAR, Francisco. "Antologia". In: Lírica e lugar comum. Alguns temas de Horácio e sua presença em português. São Paulo: EDUSP, 1994.A

23.9.16

Nelson Ascher: "Neblina"




Neblina


Neblina densa, às vezes,
(poder-se-ia quase
cortá-la em cubos como
se fosse gelo) sobe

da terra ou baixa abrupta
do céu, quando se desce
(quem do planalto rume
ao litoral) a Serra

do Mar, à noite, após
a chuva ou antes dela,
nem há como julgar
qual treva, seja a preta

ou seja a branca, é mais
cerrada, sobretudo
porque não se distinguem
(escura sinergia)

sequer uma da outra,
levando a questionar
no meio do caminho
se, posto que amanheça,
há de amanhã sair
o sol de sempre, ou mesmo
se à beira mar –quem sabe
dizê-lo- ainda há mar.




Nelson Ascher. “Neblina”. In: Algo de sol. São Paulo: Editora 34, 1996.

19.9.16

Alex Varella: "Água marinha"




ÁGUA MARINHA



Dois pedacinhos de mar

duas pedrinhas

de água

duas pedrinhas

de nada

teus olhos fazem existir o mar




VARELLA, Alex. "Água marinha". In:_____. céu em cima / mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.

16.9.16

Shakespeare: "T'is the time's plague" / "A tragédia deste tempo": trad. Inês Pedrosa



'T'is the time's plague when madmen lead the blind.

SHAKESPEARE, William. King Lear, act IV, scene I.


A tragédia deste tempo é que os loucos conduzem os cegos.

SHAKESPEARE, William, King Lear, act IV, scene I. In: Pedrosa, Inês (org. e trad.). As lições de vida de William Shakespeare. Alfragide: Dom Quixote, 2016.





13.9.16

Antonio Cicero: "Ícaro"




Ícaro

Buscando as profundezas do céu
conheceu Ícaro as do mar

Adeus poeira olímpica
grãos da Líbia
barcos de Chipre

Adeus riquezas de Átalo
vinhos do Mássico
coroas de louro
flautas e liras

Adeus cabeça nas estrelas
adeus amigos
mulheres
efebos
adeus sol:
ouro algum permanece.





CICERO, Antonio. "Ícaro". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2013.

11.9.16

Gastão Cruz: "Até tornar-se fogo"





Até tornar-se fogo

As carruagens cheias como praças
que se movem à luz geral do ensaio
repetem dia a dia a mesma viagem:

os versos partem para a humanidade
mas a humanidade para onde parte?
Sabemos as paragens em que saem

e entram os que irrompem pelo palco;
até tornar-se fogo há-de crescer
continuamente a luz mortal do ensaio




CRUZ, Gastão. "Até tornar-se fogo". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.



6.9.16

Giuseppe Ungaretti: "Tramonto" / "Ocaso": trad. Geraldo Holanda Cavalcanti




Ocaso
versa, 20 de maio de 1916

a carnação do céu
desperta oásis
no nômade de amor




Tramonto
versa il 20 maggio 1916

Il carnato del cielo
sveglia oasi
al nomade d’amore




UNGARETTI, Giuseppe. "Tramonto"/"Ocaso". In:_____. "Il porto sepolto" / "O porto sepulto". In:_____. A alegria. Edição bilíngue. Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.