24.8.16

Manuel António Pina: "Neste preciso tempo, neste preciso lugar"




Neste preciso tempo, neste preciso lugar

No princípio era o Verbo
(e os açucares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3º andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.



PINA, Manuel António. "Neste preciso tempo, neste preciso lugar". In:_____. "Nenhuma palavra e nenhuma lembrança". In:_____. Poesia reunida. Lisboa: Ass´rio & Alvim, 2001.

22.8.16

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: trecho de "Tabacaria"



Tabacaria


Não sou nada;
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

[...]



PESSOA, Fernando. "Tabacaria" (trecho). In:_____. "Ficções do interlúdio / Poesias de Álvaro de Campos". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

21.8.16

Sobre o jornal gay "Lampeão"



Agradeço ao poeta Glauco Mattoso por me ter chamado atenção para um documentário, dirigido por Livia Perez, sobre o jornal de vanguarda gay Lampeão, do final da década de 1970 e começo de 1980, que eu sempre lia. Ele me enviou também os seguintes links de teasers/trailers do filme da Livia Perez:





Aqui vocês podem assistir ao teaser que corresponde ao último desses links. Trata-se de um trecho do programa "Metrópolis", da TV Cultura:



Adriana Calcanhotto: "canção sem seu nome"




canção sem seu nome

Eu vi você atravessar a rua
Molhando a sombra na água
Eu vi você parar a lagoa parada

Você atravessou a rua na direção oposta
Pisando nas poças, pisando na lua
E a poesia refletida ali me deu as costas

E pra que palavras se eu não sei usá-las?
Cadê palavra que traga você daquela calçada?

Você atravessou a rua na direção contrária
E a poesia que meu olho molhava ali
Quem sabe não me caiba
Quem sabe seja sua
Ali, atravessando a chuva
E toda a lagoa parada
Você na direção errada
E eu na sua



CALCANHOTTO, Adriana. "cancão sem nome". In:_____. Pra que é que serve uma canção com essa? Org. por Eucanaã Ferraz. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2016.


18.8.16

Luis Dolhnikoff: "um poema"




um poema


um poema
é um objeto
como qualquer outro
se qualquer outro objeto
for de tinta preta
papel branco
e pontas
soltas
de frases cortadas
em cortantes
dispondo
e expondo
palavras comuns
de forma incomum
capazes de lançar
e entrelaçar
vibrações
e outras ações
de fios de sentidos
como corpos
que não se tocam
mas suas sombras
se sobrepõem
traçando o contorno
ou quase
da possibilidade do
não encontro



DOLHNIKOFF, Luis. "um poema". In:_____. As rugosidades do caos. São Paulo: Quatro Cantos, 2015.

16.8.16

Ricardo Silvestrin: "Dança"





Dança


Sim, existe a dança:
o corpo solto avança
e recua leve nos passos
matemáticos, um, dois, um,
como se fosse mais fácil
viver num tempo menor,
brincadeira de criança
que sabe de cor o roteiro
e ri na hora marcada.

Fora da dança, o infinito
nos convida, nos seduz
com passos improváveis,
mas temos dois olhos,
apenas duas pernas,
e, sobretudo, duas mãos
onde só cabe um punhado
de estrelas.




SILVESTRIN, Ricardo. "Dança". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

14.8.16

Salgado Maranhão: "Um outro um"




Um outro um

Caminho com o outro que é um vulto
a me seguir ao sol. O que não tem
nome ou norma e sequer se faz oculto,
porque livre é seu hoje e o seu além.
Não posso deletar esse atributo
que já está na conta do armazém
do ser. E ainda que me faça astuto,
eu próprio já não sei se quando é quem.
Se me desperto acordo em alvoroço
aquela voz que grita nos meus ossos
uma pavana feita de alarido
(num apelo febril mais do que posso).
Por vezes, me pergunto estarrecido:
foi ilusão de espelho esse ter sido?



MARANHÃO, Salgado. "Um outro um". In:_____. Avessos avulsos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016.